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A mala da malícia: o que você carrega quando olha para alguém

há 9 horas
3 min de leitura
Entre tigres previsíveis e cachorros festeiros, somos o bicho que exige manual de instruções — e histórias falsas adulteram o manual.
Entre tigres previsíveis e cachorros festeiros, somos o bicho que exige manual de instruções — e histórias falsas adulteram o manual.

Quando você olha para um tigre, sabe o que esperar. Ainda mais se ele estiver com fome. Quando olha para um cachorrinho pulando na sua perna assim que você entra em casa, também sabe. Mas o ser humano? O ser humano é o único bicho que exige atualização constante de manual.


Aí entra a malícia. Antes que alguém torça o nariz, explico: malícia, aqui, não é maldade. É a mala de experiência que você carrega. Uma bagagem de mão invisível, cheia de cicatrizes, alegrias, decepções, desconfianças e afetos. Quando você encara outro humano, essa malinha abre. Você pesca detalhes: tom de voz, olhar, hesitação, postura, aquilo que a pessoa diz e, principalmente, o que ela tenta esconder. É esse repertório que permite ler intenções, antecipar movimentos, perceber quando o sorriso é porta ou vitrine.


Quanto mais convivência você tem com gente, mais material acumula. Conversas, atritos, reconciliações, trabalhos, amores, filas de banco, reuniões de condomínio. Tudo vai para a mala. Mas, quando não interagimos muito com outros seres humanos, por escolha ou imposição, as histórias passam a ser o suplemento. Filmes, séries, livros, causos, notícias, podcasts. Elas nos entregam pedaços de mundo para completar o que não vivemos.


O problema começa quando essa mercadoria é falsificada. Aí a mala não é abastecida: é adulterada. Você recebe um mapa errado e, diante de outro ser humano, faz uma leitura distorcida. Passa a ver herói em gente medíocre, vítima em quem manipula, monstro em quem só é diferente. A narrativa falsa estraga o instrumento com que você lê o mundo.


E, com medo dessa contaminação vinda por fontes externas, algumas pessoas passam a se isolar e a ignorar qualquer fonte, pessoa, canal, música, história que seus líderes, sejam eles religiosos ou políticos, não atualizem. Em troca, incentivam histórias e conteúdos vindos de pessoas ou veículos alinhados com o grupo. A intenção pode até ser proteger. O efeito, porém, é uma bolha. Quem passa muito tempo dentro dela deixa de colocar na mala da malícia o material necessário para lidar com quem está fora. O resultado não é pureza. É distanciamento. E, pior, desumanização: uma opinião genérica sobre o outro que chega a ser pior que a cegueira. Porque a cegueira não vê; a visão distorcida vê errado e age como se estivesse certa.


O mesmo vale para a informação. Se você só consome uma fonte, uma linha editorial, um grupo, uma tribo, sua mala fica monofônica. Você até acumula dados, mas perde a capacidade de farejar contexto. Vira presa fácil de quem sabe manipular narrativas. Não porque seja ingênuo, mas porque foi treinado a reconhecer apenas um tipo de tigre, e, quando apaece um tigre diferente, acha que é gatinho.


A saída não é viver paranoico, desconfiando de tudo e de todos. Isso também é uma forma de distorção. A saída é ampliar convivência, escutar histórias diversas, desconfiar de narrativas perfeitas demais, aceitar que gente é complexa. Tigre tem instinto. Cachorro tem afeto. Humano tem contradição. E é justamente por isso que precisamos manter a mala aberta, revisada, arejada.


No fim, malícia atualizada não é cinismo. É humanidade. É saber que o outro não vem com bula, mas que, com repertório, atenção e humildade, dá para ler melhor, sem nunca esquecer que a gente também é, para o outro, um ser difícil de prever. E talvez seja esse o nosso encanto e o nosso perigo.

 
 
 

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