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As pessoas estão vendo outro filme

há 11 horas
2 min de leitura
Pessoa de pijama colorido vê filme no micro-ondas na sala retrô, com gato e pipoca; placa diz MICROWAVE CINEMA.
O que você está assistindo?

Tem um hábito que carrego de mais de trinta anos escrevendo histórias: eu não consigo mais assistir a nada sem analisar o roteiro. Novela, documentário, comercial de trinta segundos, discussão de família no almoço de domingo, meu olho vai direto para a estrutura. Quem é o protagonista. O que ele quer. O que está disposto a perder para conseguir. E, principalmente, o que ele diz que quer, mas não é bem o que ele busca.


Por isso, ultimamente, ligar a televisão e assistir ao noticiário tem sido um exercício curioso. Porque eu vejo um filme, e algumas pessoas ao meu redor parecem estar vendo outro.


A trama é a mesma, exibida ao vivo, todos os dias, para o país inteiro. Mas a leitura muda completamente de espectador para espectador. E não é uma questão de opinião, é uma questão de roteiro mal lido. As pessoas assistem à cena e já saem buscando o herói. O salvador. Aquele que vai resolver tudo no terceiro ato. E, na pressa de encontrar esse personagem, elas o inventam. Preenchem os buracos do roteiro com a versão que precisam que seja verdadeira.


O problema é que herói não se declara. Herói se revela pela ação, sustentada ao longo de toda a história. E o que a gente vê, na maioria das vezes, são personagens mal desenvolvidos, que numa cena dizem uma coisa, na cena seguinte defendem o oposto, e ainda assim continuam sendo aplaudidos por uma plateia que já decidiu, antes mesmo do filme começar, quem é o mocinho.


Eu sempre digo, para quem trabalha comigo, que história boa exige do espectador tanto quanto exige do autor. Quem lê pouco, quem assiste pouco, quem não é exposto a histórias bem construídas, perde um pouco a malícia do mundo. Perde a capacidade de desconfiar do óbvio. De perguntar o que está por trás desse discurso manso. Qual é o real interesse por trás de tudo isso? E aí vira presa fácil de qualquer personagem raso que saiba fingir profundidade por alguns minutos de tela.


Fico pensando: se parte dessas pessoas tivesse visto um lobo vestido de vovozinha, será que perguntariam "por que essa boca tão grande"? Ou será que, encantadas com a touca e o vestido, já estariam dizendo que finalmente encontraram a vovó que sempre quiseram?


Não é ingenuidade. É falta de repertório. E repertório não se improvisa, se constrói, história após história, até que os olhos aprendam a enxergar além do figurino.

Enquanto isso não acontece, o país continua assistindo ao mesmo noticiário, no mesmo horário, com o volume no mesmo nível, só que cada um vendo um filme diferente. E o pior: aplaudindo no final, sem saber muito bem por que aplaude.

 
 
 

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