O CRITICADO - Dia D
- estudio llwillsilva
- há 2 dias
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O QUE OS CRÍTICOS DE CINEMA FALARAM SOBRE O FILME
Abaixo, você confere um vídeo que preparei com uma compilação de opiniões sobre “Dia D”. Dê o play e depois me conte de que lado da trincheira você ficou.
Não houve estrondo de foguetes nem campanha de marketing estendida por dois anos. Quando Steven Spielberg anunciou que voltaria à Segunda Guerra Mundial depois de “O Resgate do Soldado Ryan” (1998) e da minisséries “Band of Brothers” (2001) e “Masters of the Air” (2024), muitos imaginaram que o cineasta se contentaria em revisitar as trincheiras com o piloto automático ligado. “Dia D”, no entanto, não é um “Ryan 2”. É um filme que divide plateias e críticos exatamente porque joga em duas frentes opostas: ao mesmo tempo que busca uma imersão sensorial inédita na invasão da Normandia, aposta num intimismo reflexivo que, para uma parcela dos analistas, quebra o ritmo que o próprio Spielberg ajudou a consolidar como padrão do cinema de guerra moderno.
Lançado simbolicamente em 6 de junho de 2024, nos 80 anos do desembarque aliado, “Dia D” acompanha cinco personagens reais – um soldado raso americano, uma enfermeira canadense, um operador de rádio britânico, um paraquedista da França Livre e um adolescente civil normando – cujos destinos se cruzam ao longo das 24 horas que mudaram o século XX. Spielberg evitou astros de primeira grandeza e escalou um elenco de jovens pouco conhecidos, reforçando a sensação documental. A produção de 210 milhões de dólares filmou durante 92 dias em sets construídos no Reino Unido e numa praia isolada da Irlanda que recria Omaha com uma fidelidade topográfica impressionante. Janusz Kamiński, diretor de fotografia parceiro de longa data, usou câmeras IMAX combinadas com lentes dos anos 1940 adaptadas, resultando em uma textura visual ao mesmo tempo grandiosa e granulada.
É justamente essa dualidade entre o monumental e o íntimo que divide as avaliações. Os críticos que torceram o nariz enxergam “Dia D” como um filme esquizofrênico, que não decide se quer ser um ensaio sobre a fragilidade humana ou um parque de diversões sensoriais. Um dos argumentos mais repetidos é o da “fadiga da guerra spielberguiana”: para esses analistas, o diretor recicla a estrutura do “Resgate do Soldado Ryan” – o prólogo brutal de combate, a jornada dilacerante e a epifania moral – sem acrescentar nada realmente novo. A sequência inicial do desembarque, com 27 minutos de duração, seria, segundo essa corrente, mais uma demonstração de virtuosismo técnico que, embora tecnicamente irretocável, carece do impacto emocional devastador da original. O sangue digital, a câmera que mergulha e emerge da água, os corpos dilacerados em câmera lenta soariam como um cover luxuoso, não como uma reinvenção.
Outra objeção frequente mira o roteiro assinado por Tony Kushner, colaborador de Spielberg em “Munique” e “Lincoln”. Kushner estrutura os diálogos como peças de câmara inseridas no meio do caos: o soldado recita Walt Whitman numa vala enquanto projéteis passam zunindo; a enfermeira debate teologia com um prisioneiro alemão de 16 anos; o paraquedista francês rememora, num monólogo de oito minutos, a humilhação da ocupação. Para os detratores, essas pausas líricas sufocam a tensão e soam artificialmente literárias, como se o filme implorasse por uma gravidade que as imagens já entregam sem esforço. A montagem paralela entre os cinco núcleos é outro ponto de ataque: a fragmentação impediria a criação de vínculos profundos, tornando alguns personagens meros estereótipos didáticos. A enfermeira, em especial, foi criticada por ser “resiliente demais” – um arquétipo de força feminina que nunca se desmancha, o que contrastaria com a vulnerabilidade exposta dos soldados.
Por fim, a trilha de John Williams – a última composta por ele para Spielberg, aos 92 anos – também gerou controvérsia. Williams optou por um score minimalista, quase fantasmagórico, pontuado por silêncios longos e um tema central que só se revela plenamente nos créditos finais. Para alguns, essa economia sonora é um gesto de maturidade; para outros, priva o filme do alívio emocional que as tradicionais fanfarras patrióticas trariam, deixando uma sensação de frieza que se estende por 2 horas e 48 minutos de projeção.
No polo oposto, a defesa apaixonada de “Dia D” vem principalmente de quem enxerga o filme não como um épico de guerra, mas como uma anti-epopeia – um poema sobre corpos e memória que só Spielberg, com seu prestígio, conseguiria financiar nos moldes do estúdio. A imersão técnica, longe de ser exibicionista, é lida como um manifesto: Kamiński e o desenhista de som Gary Rydstrom criam uma experiência sinestésica em que o espectador sente o peso da areia molhada, o zumbido crônico no ouvido após as explosões e o cheiro metálico do sangue que a tela, obviamente, não exala. O uso de som imersivo Dolby Atmos, com balas cruzando a sala em todas as direções, não é mero truque, mas uma tentativa de traduzir a desorientação real do campo de batalha. Ninguém sai do cinema dizendo “que cena bonita”; sai dizendo “eu estava lá”.
Os entusiastas também rebatem a acusação de frieza apontando justamente para os silêncios. Quando o adolescente francês encontra o corpo do irmão mais novo entre os escombros de uma vila bombardeada, a câmera de Spielberg permanece imóvel por três minutos, sem trilha, sem cortes. É um anticlímax que desafia o público treinado para o alívio rápido. Para os defensores, essa contenção é a prova de que o diretor, aos 77 anos, não precisa mais provar que sabe filmar ação – ele quer filmar o que sobra depois que a ação termina.
A estrutura fragmentada, criticada por diluir a empatia, é celebrada por quem vê nela um mosaico historiográfico. Nenhum personagem é heroico no sentido clássico; todos estão perdidos, assustados, cometendo pequenos atos de covardia e grandeza que não entram para os livros oficiais. Ao seguir um arco de 24 horas e cruzar destinos sem alarde, “Dia D” se aproximaria mais de um romance modernista do que de um roteiro de guerra convencional. A escolha de Kushner por Whitman não é gratuita: o poeta celebrou a fraternidade nos campos de batalha da Guerra Civil Americana, e o filme tenta, a cada monólogo, lembrar que a Normandia também foi uma guerra civil entre europeus antes de ser a vitrine da libertação.
Quanto à trilha, os fãs enxergam a partitura espectral de Williams como a cereja do bolo de uma obra crepuscular. O tema principal, uma melodia que parece inacabada, é tocado por um quarteto de cordas e desaparece antes de se resolver. Simboliza, dizem, as vidas interrompidas e as cartas jamais enviadas. É o modo de um compositor nonagenário e de um cineasta septuagenário dizerem adeus ao gênero sem o triunfalismo que a ocasião histórica poderia exigir.



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