Prazer-mate
Se apenas a vitória interessa, a partida é só um empecilho.

É quase uma ofensa alguém utilizar IA para criar uma história. Não pela ferramenta em si, mas porque há coisas que só fazem sentido quando nascem do desejo, do erro, da teimosia humana.
Pensa assim. Eu amo jogar xadrez. Gosto da surpresa da abertura. Da escolha que cada um vai fazer para movimentar suas peças. O processo mental que seu cérebro tem que fazer a cada movimento da peça. Eu amo as aberturas de partida. Ir desenvolvendo as peças no tabuleiro. Entendendo o que seu oponente está planejando. O avanço dos peões. As armadilhas dos cavalos. Eu amo jogar uma partida de xadrez.
Ontem, no Chess.com, descobri que algumas pessoas utilizam programas de IA para escolher a melhor jogada. E aquilo me soou como uma trapaça contra o próprio prazer. Porque não é só o resultado que importa. É a dúvida. É o arrependimento. É a jogada ruim que a gente faz e depois passa a noite pensando nela.
Hoje vivemos um tempo em que as pessoas estão sendo obrigadas a parar de fazer o que amam, porque alguém está utilizando IA para substituir seu ofício. O problema não é a máquina fazer. É a gente aceitar que o humano é apenas um detalhe ineficiente no meio do processo.
Eu tenho grupos de escritores, na maioria amadores do ofício, buscando orientação de como montar uma história. Um desses participantes me disse que montou um site onde comercializa histórias no formato de e-book. Ele disse, NA TELA DO MEU COMPUTADOR, que não gosta de escrever, nem pretende escrever uma história do zero. “Deus me livre passar esse tempo todo sentado.” Ele estava na oficina para melhorar a qualidade do seu prompt. Ou seja: não queria aprender a escrever. Queria aprender a pedir que a máquina escrevesse por ele.
Por que alguém utiliza uma IA para jogar uma partida de xadrez?
Você não gosta de jogar xadrez. Deixa as pessoas que gostam de jogar, jogando. Vai fazer outra coisa.
Se você não tem saco para escrever uma história, vai fazer outra coisa da vida, vai jogar golfe, futebol, boliche.
Será que vai chegar o dia em que ninguém mais vai saber tocar um instrumento? Que ninguém vai saber perder tempo com um violão desafinado, uma história que não fica pronta, uma partida que se joga só pelo gosto de jogar?





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