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JOB #01 - A PSICÓLOGA NO BANCO DA PRAÇA

Moro sozinho aqui em São Paulo há vinte anos — tempo suficiente para decorar cada rangido do assoalho, cada horário em que o vizinho do 702 liga a vassoura elétrica. Meu nome é Ary, tenho 47 anos e, nos últimos meses, venho tentando algo que parece mais assustador do que qualquer prazo apertado: tornar-me mais sociável. O problema é que não estou exatamente sozinho. Há anos convivo com um amigo imaginário — um tipo de Gasparzinho da mente, só que menos fofo e mais intrometido. Ele aparece quando menos espero, ora soprando ideias geniais, ora sussurrando ideias idiotas.


Marcia - A Psicóloga
Marcia - A Psicóloga

Não foi sempre assim. Houve um tempo em que eu lotava mesas de bar, trocava abraços demorados, acreditava que amizade era coisa que se construía com presença. Depois veio o golpe — não de dinheiro, mas de confiança — e eu descobri que algumas pessoas guardavam facas para quando você virasse as costas. O amigo imaginário apareceu nessa época, primeiro como consolo, depois como muralha. "Quem precisa deles?", ele dizia, flutuando na poltrona velha. "A gente se basta." E por duas décadas, a gente se bastou mesmo. Eu e minhas vozes, criando histórias para clientes que iam de multinacionais a pequenos empreendedores, todos igualmente distantes.


O Gasparzinho da minha cabeça é uma criatura curiosa. Não tem aquela forma redonda e bonachona do desenho — é mais uma silhueta transparente que assume contornos conforme o humor. Quando está inspirador, veste um terno imaginário e fuma um charuto inexistente, como um executivo de antigamente. Quando resolve sabotar, encolhe-se num canto e assume voz de profeta do apocalipse. Hoje ele amanheceu inquieto, dançando na borda da xícara de café enquanto eu tentava organizar os e-mails. "Dia estranho pela frente", profetizou. Ignorei, como sempre.


A rotina de freelancer tem dessas: você acorda, responde mensagens atrasadas, toma café olhando para a parede. Meus clientes formam um mosaico curioso — desde diretoras de marketing de empresas grandes até youtubers iniciantes que mal sabem o que querem, mas sabem que querem algo "diferente". Cada projeto é um universo a ser descoberto, uma psicologia a ser decifrada. O que aquela pessoa realmente deseja comunicar? Qual a dor escondida por trás do brief? O amigo imaginário adora esses enigmas. "Somos detetives da alma alheia", ele costuma dizer, e por um instante quase acredito que isso substitui ter uma alma própria.


O telefone tocou quando eu terminava a segunda xícara. Era o Beto, meu assistente — um menino de vinte e poucos anos que funciona como meu antissoro contra o isolamento total. "Ary, peguei um cliente novo. Você vai gostar." A voz dele tinha aquela empolgação que só os jovens ainda preservam. "É uma clínica de psicologia que quer um vídeo institucional diferente. A dona, Márcia, está cansada daquele padrão 'pessoas sorrindo em salas brancas'. Ela quer algo que mostre a dor real, o processo, a bagunça que é crescer." Anotei as palavras-chave enquanto o Beto detalhava: público-alvo são adultos entre 30 e 45 anos, muitos em transição de carreira, outros lidando com lutos não elaborados. A dor do cliente era justamente essa — a dificuldade de vender acolhimento num mundo que exige produtividade.


Desliguei o telefone e o apartamento pareceu encolher. Silêncio absoluto, só o barulho do trânsito lá embaixo. Fiquei imaginando a Márcia, a psicóloga, sentada na escrivaninha dela tentando explicar para si mesma por que seu trabalho era necessário. O amigo imaginário materializou-se atrás de mim, tão perto que senti o frio metafórico da presença dele. "Clínica de psicologia? Ótimo. Você vai passar dias ouvindo histórias de gente problemática, e no final vão achar que seu trabalho é simples porque 'é só filmar umas entrevistas'. Psicóloga é tudo igual: querem mudar o mundo sem sair do consultório." A voz dele era um zumbido ácido. Respirei fundo. "Ela só quer um vídeo diferente", respondi, mas minhas mãos já suavam.


O amigo listou os motivos pelos quais aquele projeto era uma cilada: primeiro, clínica geralmente tem orçamento apertado; segundo, psicólogos adoram dar pitaco criativo ("já que entendem de comportamento, acham que entendem de narrativa"); terceiro, o tema era pesado demais para um sujeito que passou vinte anos evitando contato humano significativo. "Você vai ter que entrevistar pessoas reais, Ary. Gente que chora, que treme, que talvez espere de você algo que você não sabe dar." A última frase ficou ecoando. Ele tinha razão. Meu forte sempre foi criar personagens, não lidar com pessoas. Personagens não devolvem o olhar, não esperam abraço, não perguntam "e você, como lida com isso?".


Precisava sair de casa. Coloquei um casaco fino — manhã de outono em São Paulo tem dessas esquizofrenias térmicas — e desci para caminhar sem destino. Andar pela cidade sempre funcionou como uma espécie de esvaziamento. Na Paulista, os prédios engolem o céu. Parei numa livraria e folheiei um livro. O cheiro de papel novo misturado ao de café da cafeteria ao lado. Uma mulher discutia no celular sobre pensão alimentícia. Um entregador quase derrubou o lanche no colo de um executivo. A cidade inteira era um filme sem roteiro, e eu, o observador profissional.


Voltei para casa e entrei no banho. Água quente descendo pelas costas, vapor embaçando o espelho. É ali que as ideias costumam se soltar — quando o corpo relaxa e a mente vira uma sopa de imagens. Vi a Márcia, a psicóloga, sentada não numa poltrona de consultório, mas num banco de praça. Vi os pacientes chegando com suas doras, sentando ao lado dela, dividindo o espaço público. "A clínica é o mundo", pensei. "Não tem parede." E então vieram as frases soltas, como anotações mentais: pessoas carregam casas nas costas / o divã é a calçada / todo mundo tem um fantasma / inclusive eu. Saí do banho encharcado, peguei o caderno e escrevi tudo em caos: "CONSULTÓRIO ABERTO / a cidade é a sala de espera / DEPOIMENTOS EM MOVIMENTO / câmera na mão / gente andando / parando / chorando no ponto de ônibus". Rabisquei um olho ao lado, depois uma fala: "a psicóloga não cura, ela caminha junto".


A escrita automática é meu truque mais antigo. Peguei o caderno — aquele capa dura preta — e deixei a caneta correr sem julgamento. "Márcia não quer ser a heroína. Ela quer ser a testemunha. O paciente não é coitado, é sobrevivente. A dor não é feia, é matéria-prima. E se a gente filmar tudo em preto e branco, mas os olhos das pessoas terem cor?" Desenhei uma seta, uma nuvem, escrevi "SÃO PAULO COMO DIVÃ" e risquei. Depois: "A CIDADE QUE NÃO DORME ESCUTA". Algumas ideias eram descartáveis, outras tinham peso. O importante era não parar, não deixar o amigo imaginário meter a colher antes da hora. Mas ele já estava ali, lendo por cima do meu ombro. "Isso é pretensioso", murmurou. "Quem você pensa que é pra reduzir a cidade a metáfora de consultório?" Ignorei e continuei rabiscando.



Ary
Ary

Num café da Vila Madalena, com cheiro de torra forte e música ambiente alta demais, abri o notebook. As mesas eram de madeira rústica, os garçons tinham tatuagens no antebraço e ninguém ligava se você ocupava um lugar por horas. Botei o fone com ruído marrom e comecei a estruturar o caos. "Título provisório: A Clínica é a Rua. Conceito: Márcia atende em diferentes lugares da cidade — um banco de praça, um café, a escadaria do MASP, uma estação de metrô. Cada lugar representa uma camada da psique: o banco é o cansaço, o café é a ansiedade social, a escadaria é o desejo de subir, o metrô é o inconsciente coletivo." Escrevi isso e parei. Parecia bom, mas faltava carne. Faltavam as vozes.


Comecei a esboçar os depoimentos fictícios — personagens que eu criaria para representar as dores que a clínica queria acolher. "Uma mulher de 40 anos que recomeçou a carreira e tem medo de não dar conta. Um homem de 50 que nunca chorou na vida e agora o corpo cobra. Uma jovem de 25 que não sabe o que sente porque passou a vida inteira performando." O amigo imaginário sentou na cadeira vazia em frente. "Muito clichê", disse, balançando a cabeça. "Gente de 40 com crise, homem que não chora, jovem performática — parece receita de bolo." Senti o estômago embrulhar. "E o que você sugere?", perguntei, derrotado. Ele cruzou os braços. "Não sei. Mas sei que isso aí é lugar-comum." Fiquei olhando para a tela, o cursor piscando, o café esfriando.


E então, no meio da dúvida, o outro lado dele falou. Às vezes o amigo imaginário é bipolar — ou talvez seja que dentro de mim existam várias vozes, e eu insisto em chamar todas pelo mesmo nome. "Espera", disse a voz mais suave. "Lembra daquela imagem que você teve no banho? A psicóloga no banco da praça. A cidade como divã. Isso não é clichê. Isso é verdade." Respirei fundo. Voltei ao caderno, reli os rabiscos. E então o clique: o conceito não era sobre lugares, era sobre encontros. O que Márcia vende não é cura — é presença. E presença pode acontecer em qualquer lugar. Recomecei: "Vídeo começa com ela sentada sozinha num banco. Pessoa chega, senta ao lado. Ela pergunta: 'Como você está hoje?' A pessoa começa a falar. Cortes rápidos: várias pessoas, vários bancos, várias perguntas. No final, ela diz: 'Não tenho respostas. Mas tenho tempo pra ouvir você.'" O amigo negativo emudeceu. Até ele sabia que ali tinha alguma coisa.


Passei a tarde escrevendo. Roteiro pronto, descrição de cenas, sugestões de direção de fotografia. Incluí uma nota sobre o áudio: captar os sons da cidade como pano de fundo, porque a clínica real tem buzina, tem cachorro latindo, tem gente passando. "A saúde mental não é silenciosa", escrevi no final. Salvei o documento, anexei num e-mail para o Beto e apertei enviar antes que o medo voltasse. Só então percebi minhas mãos tremendo levemente — não de nervoso, mas de algo parecido com orgulho. O amigo imaginário apareceu na borda da mesa, menor do que antes. "Ficou bom", admitiu, com um tom quase sincero. Quase.


Três semanas depois, o Beto me mandou o link. O vídeo estava no ar. Márcia aparecia em bancos de praça, sim, mas também na escada de um prédio abandonado, na fila do pão, no meio da feira. Os depoimentos eram reais — ela tinha convidado pacientes voluntários, e eles toparam. Gente comum falando de medos comuns, com a cidade passando ao fundo. O amigo imaginário positivo vibrou: "Olha a luz na cara dela! E aquela mulher, quando fala do filho — que verdade!" O negativo apontou: "A cor podia ser mais quente. E o corte pro final ficou abrupto." Balancei a cabeça. Os dois estavam certos, como sempre. Mas eu estava ali, no meu apartamento, vendo aquelas pessoas reais, pensando que talvez, depois de vinte anos, estivesse pronto para sentar num banco de praça com alguém de verdade. O amigo imaginário — os dois — se calaram por um instante. E no silêncio, ouvi a cidade lá embaixo, viva e barulhenta, me esperando.



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