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JOB #02 - O CONVITE QUE EU NÃO ESPERAVA

O convite veio por WhatsApp, numa terça-feira à tarde, e por cinco minutos inteiros fiquei olhando para a tela como se ela tivesse escrito algo em aramaico. "Ary, vou fazer um churrasco sábado lá em casa. Vem! A Márcia vai estar, aquela psicóloga do vídeo. Ela quer te conhecer." Era o Beto. Meu assistente. O rapaz que eu pagava para intermediar minhas relações com o mundo, agora querendo me jogar dentro delas. O amigo imaginário apareceu sentado no sofá, equilibrando um prato invisível. "Churrasco. Ótimo. Gente suando, cerveja quente, conversa sobre futebol e Netflix. Lugar perfeito para um homem que passou vinte anos treinando a arte de desaparecer."



O estranho é que, por um momento, cogitei aceitar. A Márcia queria me conhecer. A psicóloga que transformei em personagem, que fez eu passar dias imaginando sua voz, seus gestos, sua maneira de ouvir pessoas em bancos de praça — ela existia de verdade e queria me conhecer. Sentei na poltrona e fiquei imaginando a cena: eu chegando no tal churrasco, cumprimentando desconhecidos, tentando explicar o que faço sem parecer um impostor. O amigo imaginário mudou de posição, agora com um olhar mais analítico. "Você não sabe o que ela espera. Pode ser que odeie o vídeo. Pode ser que espere um gênio e encontre um cara de meia idade que mora sozinho e conversa com fantasmas." Respirei fundo. "Talvez ela entenda", respondi. Ele riu.


Passei o resto da tarde tentando trabalhar, mas a mente não saía do sábado. Toda vez que pensava em responder "vou sim, obrigado", meu estômago dava um nó. Abri o notebook, fechei. Abri o caderno de ideias, rabisquei um olho. O amigo imaginário flutuava pela sala feito uma versão ectoplasmática do meu próprio medo. "Lembra da última vez que você foi num encontro social que não envolvia reunião de cliente?" Lembro. Foi em 2019. Um aniversário. Fiquei duas horas encostado na parede, bebi três latinhas de cerveja só para ter o que fazer com as mãos, e saí sem me despedir de ninguém. "Pois é", ele completou. "E vai repetir a dose."



Na quarta-feira, o Beto mandou outra mensagem: "E aí, vai dar certo?" Respondi com um "vou ver" que na verdade significava "estou em desespero existencial". Ele mandou um joinha e uma foto do lugar: um quintal com árvore, uma churrasqueira de tijolos, cadeiras de plástico coloridas. Parecia tão normal. Tão possível. O amigo imaginário sentou ao meu lado no sofá e, pela primeira vez, usou um tom diferente. "Sabe o que é pior? Você pode até gostar. Pode até ser que as pessoas sejam legais. E aí? Vai ter que continuar indo em churrascos pelo resto da vida?" A pergunta era tão absurda que quase ri. Mas não ri, porque no fundo ela fazia sentido. O medo não era do churrasco em si. Era do depois. Era de abrir a porta e não conseguir fechar de novo.


Na quinta-feira, um novo cliente apareceu. Dessa vez, uma marca de roupas sustentáveis que queria um vídeo de lançamento para uma coleção feita com tecidos reciclados. A dor do cliente: parecer autêntico num mercado saturado de marcas que fingem se importar com o planeta. O desejo: mostrar que sustentabilidade não é sacrifício, é escolha consciente. Anotei tudo enquanto o Beto falava ao telefone, mas minha mente dividia atenção entre o briefing e o maldito churrasco. "Posso pensar no conceito até sábado", falei, sem pensar. E aí o amigo imaginário acendeu um charuto imaginário. "Pronto. Agora você tem desculpa. Sábado vai estar trabalhando. Ninguém pode reclamar de um cara que passa o fim de semana criando."


Mas alguma coisa tinha mudado. Pela primeira vez em vinte anos, a desculpa não me tranquilizou. Fiquei com o celular na mão, olhando a conversa com o Beto, pensando na Márcia, pensando naquele quintal com árvore. O amigo imaginário percebeu minha hesitação e endureceu o tom. "O que você quer, Ary? Virar um bêbado de churrasco? Acordar domingo com ressaca social, lembrando de conversas constrangedoras que teve?" Eu não sabia o que queria. Só sabia que, pela primeira vez, a solidão do apartamento parecia maior do que o medo do lado de fora.



No banho da noite, as ideias para a marca de roupas vieram como cachoeira. "A pele é o primeiro tecido. O que a gente veste é segunda pele. Sustentabilidade é cuidar das duas." Anotei mentalmente, mas a imagem que ficou foi a do quintal. Gente sentada em cadeiras coloridas. A Márcia talvez com um copo na mão. O Beto virando carne na churrasqueira. Eu, no meio daquilo tudo, existindo. Saí do banho e escrevi no caderno: "VESTIR A PELE / habitar o corpo / habitar o mundo / o medo é um tecido que aperta". O amigo imaginário leu por cima do meu ombro e fez cara de quem não entendeu. Talvez nem eu entendesse.


Sexta-feira de manhã, acordei com uma mensagem da Márcia. Ela tinha meu número por causa do projeto, mas nunca tínhamos trocado uma palavra direta. "Oi Ary, tudo bem? O Beto me disse que você pode ir amanhã. Fiquei feliz. Adoraria te conhecer pessoalmente, seu trabalho me tocou muito." Li três vezes. Quatro. O amigo imaginário materializou-se atrás de mim e leu também. "Ela está sendo educada. É o que psicólogas fazem. Faz parte da profissão." Dessa vez, ignorei. Respondi: "Oi Márcia, também estou feliz. Até amanhã." Meu coração batia tão alto que parecia um tambor dentro do peito.


Passei o dia tentando trabalhar no projeto da marca sustentável, mas as ideias vinham e iam sem se fixar. Rabisquei frases soltas: "o planeta é a nossa pele / o que vestimos devolve / MODA É MEMÓRIA / o tecido lembra de onde veio". Nada se conectava direito. O amigo imaginário andava de um lado para o outro na sala, visivelmente irritado. "Você está perdendo tempo. Amanhã vai passar vergonha, vai querer sumir, e segunda-feira vai estar aqui, no mesmo lugar, com o mesmo projeto atrasado." Encostei a caneta. "E se eu não quiser mais estar no mesmo lugar?", perguntei. Ele parou de andar.

Sábado chegou com céu limpo e aquele sol de outono que faz São Paulo parecer quase habitável. Passei uma hora escolhendo roupa — tarefa inútil para quem tem um armário inteiro de camisetas pretas e jeans. Optei por uma camisa de linho clara, para parecer alguém que se importa sem parecer que se importou demais. O amigo imaginário sentou na cama enquanto eu calçava o tênis. "Você ainda pode desistir. Diz que passou mal. Diz que o cliente ligou. Diz qualquer coisa." Amarrei o cadarço. "Vou", respondi. Ele suspirou. "Pelo menos leva um caderno. Para ter o que fazer."


O quintal era exatamente como na foto, mas maior. A árvore era uma mangueira. As cadeiras coloridas estavam ocupadas por gente que ria, que gesticulava, que parecia saber exatamente o que fazer com os braços e as pernas em ambiente social. O Beto me viu primeiro e veio com um abraço que me pegou desprevenido. "Ary! Conseguiu!" Apresentou-me a um cara chamado Rodrigo, que me ofereceu cerveja, a uma mulher chamada Cássia, que perguntou se eu era o "cara do vídeo da Márcia". Respondi que sim, tomei a cerveja, e o amigo imaginário cochichou: "Até agora, zero vergonhas. Mas ainda é cedo."


A Márcia estava perto da churrasqueira, conversando com uma senhora. Quando me viu, sorriu e veio na minha direção. Ela não era como eu imaginei — era mais baixa, mais morena, e usava um vestido estampado que destoava completamente da psicóloga sóbria que eu tinha criado na cabeça. "Ary!", ela estendeu a mão. "Finalmente. Queria tanto te agradecer. O vídeo está emocionando todo mundo." Disse alguma coisa sobre o trabalho ter sido prazeroso, sobre ela ter facilitado, sobre a cidade como divã. Ela riu. "Você fala como escreve. Meio poético." O amigo imaginário, surpreendentemente, ficou calado.



Conversei com a Márcia por vinte minutos. Depois com o Rodrigo sobre tênis (não entendo nada de tênis, mas fingi). Depois com a Cássia sobre cinema iraniano (descobri que ela também assiste Kiarostami). Em algum momento, sentei numa cadeira colorida, comi um pedaço de picanha e percebi que não estava encostado na parede. O amigo imaginário apareceu ao meu lado, menor do que antes. "Estão gostando de você", disse, num tom que parecia mais constatação do que crítica. "Parece que sim", respondi mentalmente. "Mas ainda faltam duas horas."


No fim da tarde, quando o sol já estava baixinho e a conversa tinha migrado para dentro da casa, a Márcia sentou ao meu lado no sofá. "Posso te perguntar uma coisa?" Balancei a cabeça. "Como você consegue criar personagens tão reais? A mulher de 40 anos, o homem que não chora — parecia que você conhecia aquelas pessoas." Olhei para o canto da sala e vi o amigo imaginário acenando, como quem diz "agora é contigo". Respirei. "Porque em algum nível, eu sou elas. A mulher que tem medo de recomeçar. O homem que não chora. A jovem que performa. Acho que a gente carrega todo mundo dentro da gente." Ela ficou me olhando por um segundo. "É", disse. "Acho que é exatamente isso."


Voltei para casa de noite, com cheiro de fumaça na roupa e a cabeça cheia. O amigo imaginário apareceu no elevador, sentado no corrimão. "Sobreviveu", disse. "Sobrevivi", respondi. "E não foi tão ruim." Ele fez que sim com a cabeça. "Algumas partes foram até boas." Entrei no apartamento, tirei a camisa de linho e joguei na cadeira. O silêncio de sempre me recebeu, mas dessa vez parecia diferente. Menos pesado. Como se as paredes tivessem aberto espaço para o cheiro de churrasco, para as vozes, para a Márcia dizendo que meu trabalho tocava as pessoas. Abri o caderno e, antes de dormir, escrevi a última frase do dia: "O tecido social também pode ser reciclado. A gente só precisa aprender a vestir ele de novo." O amigo imaginário leu, deu de ombros e desapareceu. Amanhã ele volta. Mas hoje, por algumas horas, fiquei sozinho de verdade.



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