top of page

JOB #03 - O ARQUITETO FANTASMA

O despertador tocou às 6h47, mas eu já estava acordado há pelo menos uma hora, olhando para o teto e pensando na reunião das 10h. Novidade: depois do churrasco do Beto, depois da Márcia, depois de sobreviver a um sábado inteiro entre pessoas reais, eu tinha concordado em fazer algo que, há três meses, seria impensável. Um café da manhã com um cliente. Presencial. Ele quem pediu. O amigo imaginário estava deitado ao meu lado na cama, ocupando exatamente metade do colchão, os pés fantasmas pendurados para fora. "Café da manhã profissional. Ótimo. Você vai ter que comer e falar ao mesmo tempo. Lembra a última vez que fez isso?" Não lembrava. E esse era exatamente o problema.



O cliente se chama Edgar. Tem 34 anos, é arquiteto, e me procurou porque quer um vídeo de apresentação para o escritório dele. Até aí, nada demais. O detalhe é que Edgar não quer aparecer. Não quer o rosto, não quer a voz, não quer o nome em destaque. "Quero que o trabalho fale por mim", ele disse na primeira ligação. O amigo imaginário, que ouviu a conversa pelo viva-voz, fez uma careta. "Outro fugitivo. Igual você." Anotei: "cliente deseja anonimato / dor: visibilidade é desconfortável / desejo: ser reconhecido sem ser visto". Soava como um paradoxo. Soava como eu.


Levantei, fiz café, fiquei encarando a parede da cozinha enquanto a água passava pelo filtro. O apartamento estava naquele silêncio de sábado sem churrasco — o silêncio antigo, o que eu conhecia de cor. O amigo imaginário apareceu sentado na bancada, as pernas balançando. "Sabe o que mais me intriga nesse Edgar? Ele é arquiteto. Constrói casas. Lugares onde as pessoas moram, vivem, escondem seus segredos. E agora quer que você construa a casa invisível dele." Tomei um gole de café. "Talvez ele só queira um bom trabalho, sem frescura." O amigo riu. "Ninguém contrata um especialista criativo para 'só um bom trabalho'. Todo mundo quer ser descoberto. Até quem diz que não."


Pensei no Edgar enquanto me vestia. Camisa azul clara, calça jeans sem rasgos, tênis preto — o uniforme de quem quer parecer profissional sem parecer que tentou. O amigo imaginário flutuava atrás de mim, observando a escolha da roupa como um crítico de moda disfuncional. "Você vai encontrar ele no café da Bella, na Vila Madalena. Lugar cheio de gente bonita tomando drinks antes do almoço. Ele vai estar nervoso. Você vai estar nervoso. Dois homens de meia idade trocando suor frio em cima de um croissant." Amarrei o tênis com força. "Obrigado pelo voto de confiança."



O café da Bella era exatamente isso: cheio de gente bonita, drinks antes do almoço, uma luz dourada entrando pelas janelas grandes. Cheguei 10 minutos adiantado — mania de quem teme atrasos mais do que multidões — e pedi um expresso duplo para ocupar as mãos. Fiquei observando as pessoas: um casal que não se olhava, só mexia no celular; uma mulher sozinha com um livro, igual a mim; dois caras de terno rindo alto. O amigo imaginário sentou na cadeira vazia. "E se ele não vier? E se for um trote?" Bebi o café. "Ninguém faz trote pagando um sinal de mil reais.”


Edgar chegou 9 minutos atrasado, o que me deu tempo de sobra para imaginar 47 versões diferentes dele. A real era mais baixo do que eu pensei, usava óculos redondos e uma camisa xadrez que destoava do ambiente. Pediu desculpas pelo trânsito, sentou, e por um minuto inteiro nós dois ficamos nos olhando sem saber o que dizer. O amigo imaginário cochichou: "Viu? Suor frio em cima do croissant." Pedi outro café para quebrar o silêncio. Edgar pediu um capuccino e, quando o garçom saiu, disse: "Não sei bem como começar." Respondi: "Normal. Eu também não sei."


Aos poucos, a conversa fluiu. Edgar me contou que o escritório dele é pequeno — ele e mais dois sócios — mas que os projetos são ambiciosos. Casas com conceito, apartamentos que contam histórias, espaços comerciais que querem ser mais do que só comércio. "A gente não constrói paredes", ele disse, "a gente constrói lugares onde as pessoas podem ser elas mesmas." Anotei mentalmente a frase. O amigo imaginário, surpreendentemente, ficou quieto. "E por que você não quer aparecer no vídeo?", perguntei. Ele baixou os olhos. "Porque não é sobre mim. É sobre o que a gente faz. Sempre foi."



Entendi na hora. Não era timidez exatamente — era uma convicção. Edgar acreditava tanto no trabalho que achava o próprio rosto uma distração. O amigo imaginário finalmente falou, num tom mais baixo que o normal: "Parece alguém que conhecemos." E era verdade. Passei vinte anos escondido atrás de personagens, de histórias, de projetos que falavam por mim. A diferença é que Edgar tinha 34 anos e já sabia disso. Eu demorei quase cinquenta para começar a desconfiar.


Saímos do café depois de uma hora e meia, com a promessa de que eu mandaria uma proposta completa na segunda-feira. Caminhei até o metrô sem pressa, pensando no desafio: como mostrar a alma de um trabalho sem mostrar quem faz? Como filmar casas, projetos, desenhos, e fazer aquilo tudo parecer vivo? O amigo imaginário apareceu ao meu lado, andando na calçada como se tivesse pernas de verdade. "Ele quer ser invisível, mas quer ser visto. É tipo mágica." Parei no meio da rua. "É exatamente isso. Mágica. O truque não é o mágico, é o que ele faz desaparecer."


Passei o domingo em casa, mas não consegui trabalhar direito. Fiquei folheando revistas de arquitetura, assistindo vídeos de escritórios famosos, tentando entender o que diferenciava o Edgar dos outros. O amigo imaginário não me deixava em paz: "Olha esse aqui, tudo espelho e luz. Esse outro, só gente bonita andando devagar. É tudo igual." Ele tinha razão. A maioria dos vídeos de arquitetura era sobre o arquiteto, não sobre a arquitetura. O rosto, a barba, a blazer, o olhar pensativo para a maquete. Edgar não queria nada disso. Mas o que ele queria, exatamente?



Segunda-feira, sentei para escrever a proposta e as ideias começaram a se embaralhar. Abri o caderno e deixei fluir: "ARQUITETURA É PELE / o espaço veste a vida das pessoas / O QUE AS PAREDES TESTEMUNHAM / casas guardam gritos, silêncios, amores que acabaram / EDGAR É O CONSTRUTOR DE TESTEMUNHAS / ele não aparece / mas cada cômodo é um pedaço dele". Rabisquei uma planta baixa ao lado, depois risquei tudo. "Mágica", escrevi em caixa alta. "O truque é fazer a casa falar sem ninguém dentro."


No chuveiro, a imagem veio completa. Vi as casas vazias, recém-construídas, com a luz da tarde entrando pelas janelas. E vi, em vez de pessoas, objetos que contavam histórias: uma xícara na pia, um livro aberto na mesa de cabeceira, um cobertor amassado no sofá. Como se os moradores tivessem acabado de sair. Como se a casa respirasse por eles. Saí do banho encharcado, peguei o celular e gravei um áudio para mim mesmo: "NARRADOR EM OFF / texto poético sobre o que as paredes escutam / câmera lenta nos detalhes / a luz mudando durante o dia / Edgar não aparece, mas a mão dele está em cada canto."



Mandei a proposta na terça-feira. Edgar respondeu em duas horas: "É exatamente isso. Como você sabia?" Guardei o celular sem responder. O amigo imaginário estava na poltrona, lendo um livro invisível. "Ele acha que você é bruxo", disse sem levantar os olhos. "Só sou observador", respondi. "Mesma coisa", ele completou. Fiquei pensando se era. Se observar os outros, suas casas, seus silêncios, era uma forma de magia ou apenas um jeito de não ter que olhar para dentro.


As filmagens duraram três dias. Percorremos São Paulo atrás das casas projetadas pelo escritório do Edgar — um apartamento na Vila Mariana, uma casa nos Jardins, um estúdio na Vila Madalena. Todas vazias, todas cheias de histórias imaginárias. Eu mesmo escrevi o texto da narração, e contratei uma atriz para ler, uma voz feminina, quente, como se fosse a própria casa falando. "Paredes não julgam. Elas apenas escutam. E guardam. O que você confia ao silêncio de um cômodo?" O amigo imaginário assistiu a algumas gravações e, para minha surpresa, não reclamou de nada.


O vídeo ficou pronto três semanas depois. Edgar me chamou para ver a primeira exibição no escritório dele, junto com os sócios. Luz apagada, notebook na mesa, todos em silêncio. Quando acabou, ninguém falou por uns dez segundos. Depois um dos sócios, o mais velho, disse: "É a primeira vez que alguém mostra o que a gente realmente faz." Edgar me olhou com um sorriso pequeno. Não disse nada. Mas naquela noite, quando cheguei em casa, encontrei uma mensagem dele: "Obrigado por me tornar invisível do jeito certo."



Semanas depois, o vídeo estava no site do escritório, e eu recebi uma enxurrada de contatos de outros arquitetos querendo "um trabalho igual". O amigo imaginário positivo apareceu com fogos de artifício imaginários. "Viu? Você é foda. Entendeu a alma do cara." O negativo, encostado na parede, resmungou: "Agora vai ter que fazer isso para uma dúzia de arquitetos. Todos querendo a mesma coisa. Vai virar fórmula." Sentei no sofá e fiquei pensando. Talvez eles estivessem certos, os dois. Talvez todo trabalho seja um equilíbrio entre acertar e repetir.


O que mais me marcou, no fim, foi uma coisa que o Edgar disse no dia da exibição, quando os sócios tinham saído para fumar. "Sabe por que eu não queria aparecer? Porque passei a vida inteira tentando construir algo que fosse maior do que eu. E quando a gente consegue, não precisa mais mostrar o rosto. A obra mostra." Fiquei calado, mas o amigo imaginário cochichou no meu ouvido: "Ele tá falando de você também." E talvez estivesse. Talvez todos esses anos escondido atrás de personagens fossem uma tentativa de construir algo maior. Talvez a solidão fosse só o andaime.


Na volta para casa, passei em frente a um bar e, por um momento, pensei em entrar. Tomar uma cerveja sozinho, mas entre outras pessoas. O amigo imaginário apareceu no reflexo da vidraça. "Vai encarar?" Olhei para dentro: algumas mesas ocupadas, um casal conversando, um homem sozinho com um jornal. "Outra hora", respondi. E continuei andando. Mas, pela primeira vez, "outra hora" não soou como "nunca". Soou como "talvez amanhã".


Em casa, abri o caderno e escrevi a última anotação do dia: "A invisibilidade de Edgar não é fuga. É escolha. A minha, durante vinte anos, foi fuga. Agora começo a desconfiar que escolha e fuga são a mesma coisa, dependendo do ângulo." O amigo imaginário leu por cima do meu ombro, como sempre. Dessa vez, não disse nada. Só balançou a cabeça, num gesto que podia ser concordância ou cansaço. Com ele, nunca se sabe..


Hoje de manhã, o Beto mandou mensagem: "Edgar indicou você para mais dois clientes. Um deles quer café da manhã também." Olhei para o telefone, depois para o amigo imaginário, que tomava café imaginário na xícara vazia. "Vai responder o quê?" Guardei o celular no bolso. "Vou tomar café." Ele levantou a xícara, num brinde irônico. "Saúde", disse. E pela primeira vez, quase acreditei que ele estava torcendo por mim.



Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação

Inscreva-se para receber atualizações

Obrigado

© 2026 Estúdio Cinematográfico llwillsilva

  • Instagram
  • LinkedIn
bottom of page