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JOB #04 – O SILÊNCIO QUE APROXIMA

A agonia da escolha da roupa
A agonia da escolha da roupa

O encontro estava marcado para as 20h num bar da Vila Madalena, e às 19h15 eu já tinha trocado de roupa três vezes. Camisa social muito formal, regata muito informal, camiseta preta básica – parecia que eu não tinha me esforçado. O amigo imaginário estava deitado na cama, assistindo ao meu desfile particular com uma expressão entre o tédio e o deboche. "Você sabe que ela vai estar lá, né? A pessoa real. Não é um cliente. Não é um briefing. É uma mulher que viu seu perfil e achou que valia a pena sair de casa numa quarta-feira." Passei a mão no cabelo. "Eu sei."


Era culpa do Beto, claro. Depois do churrasco, depois da Márcia, depois do Edgar, meu assistente decidiu que era hora de uma intervenção mais profunda. "Ary, você já provou que consegue conversar com pessoas. Agora precisa provar que consegue conversar com mulheres." Instalei o aplicativo por insistência dele, preenchi o perfil com a ajuda do amigo imaginário (que sugeriu frases como "escritor de almas alheias procura alma própria" e eu descartei), e dei match com uma mulher chamada Luna. Designer gráfica, 38 anos, cabelo roxo na foto, uma frase no perfil que dizia: "procuro quem entenda que silêncio também é resposta".


A conversa com Luna pelo aplicativo
A conversa com Luna pelo aplicativo

Conversamos por duas semanas antes de marcar o encontro. Trocamos mensagens longas sobre arte, sobre solidão, sobre o fato de que ela também morava sozinha em São Paulo e também desconfiava que os aplicativos eram uma invenção do diabo para fazer pessoas introvertidas se sentirem incompetentes. O amigo imaginário lia todas as conversas por cima do meu ombro e fazia comentários: "Ela gosta de silêncio. Ótimo. Você pode levar ele de presente." Respondi que silêncio não se leva, se compartilha. Ele revirou os olhos.


Na mesma semana, um novo cliente apareceu. Dessa vez, uma startup de tecnologia que desenvolvia um aplicativo de meditação. O nome era algo como "Acalma", "De boa" ou "Suave" – horrível, eu sabia, mas não era minha função julgar nomes. A dor do cliente: o mercado de bem-estar digital estava saturado de apps que prometiam paz em cinco minutos, e eles queriam se diferenciar. O desejo: criar algo que não fosse apenas mais uma ferramenta de produtividade disfarçada de autocuidado. "Queremos que as pessoas realmente desacelerem", disse a fundadora, uma mulher de 30 anos chamada Tânia, durante a videochamada. "Não que usem o app para otimizar a meditação."


Desliguei a chamada e fiquei olhando para a tela. O amigo imaginário materializou-se ao lado. "Meditação. Startup. Tudo nessa história é esquisito." Ele tinha razão, claro. Como ensinar as pessoas a desacelerar através de um aplicativo? Como vender calma num mundo que transforma tudo em mercadoria? Anotei as palavras da Tânia: "desacelerar de verdade / não ser ferramenta de produtividade / o app precisa sumir para a experiência acontecer". Fiquei com essa última frase na cabeça: o app precisava sumir.


Passei a tarde pensando no aplicativo invisível e na Luna visível. Os dois ocupavam a mesma área do cérebro — a que lidava com conexão, com presença, com o medo de não ser suficiente. O amigo imaginário notou minha dispersão e sentou na mesa de trabalho. "Você está misturando as coisas. Luna não é cliente. Meditação não é encontro. Se não separar, vai criar um vídeo sobre um app que ensina a meditar enquanto pensa em mulher de cabelo roxo." Fechei o notebook. "Talvez seja exatamente isso que o app precise."


Ary esperando por Luna
Ary esperando por Luna

Na quarta-feira, cheguei ao bar quinze minutos adiantado (mania que não cura) e pedi uma cerveja para ocupar as mãos. O lugar era pequeno, com luz amarelada e paredes de tijolo aparente — o tipo de ambiente que tenta parecer autêntico mas é igual a todos os outros. Fiquei observando a porta, o celular, a espuma da cerveja. O amigo imaginário sentou no banco ao lado. "Ela não vem. Tá em casa rindo de você com as amigas." Guardei o celular. "Se não vier, pelo menos a cerveja é boa."


Luna chegou dez minutos atrasada, o que na minha régua pessoal era o atraso perfeito — suficiente para não parecer ansiosa, curto demais para ser desaforo. Ela era mais bonita ao vivo do que nas fotos, o que raramente acontece. O cabelo roxo estava preso num coque frouxo, e ela usava um vestido preto que parecia simples mas provavelmente não era. "Ary?", estendeu a mão. "Luna." Apertei a mão dela e senti a palma suada. A minha, não a dela. Ela sentou, pediu uma cerveja, e por um minuto nós dois ficamos naquele silêncio que ela dizia gostar.


Luna e Ary conversando no bar
Luna e Ary conversando no bar

A conversa fluiu melhor do que eu esperava. Descobri que Luna era de Salvador, que veio para São Paulo fazer mestrado em design e nunca mais voltou, que morava num apartamento na Bela Vista com uma gata chamada Yoko. Ela descobriu que eu era do interior de Minas, que vim para a cidade fugindo de uma história que não quis contar direito, que morava sozinho há vinte anos com um amigo imaginário. Essa última parte eu não contei, claro. Mas por algum motivo, quando ela falava, eu sentia que ela sabia. Como se ela também tivesse os amigos imaginários dela.


O amigo imaginário ficou quieto a maior parte do tempo. Aparecia de relance no reflexo do espelho atrás do balcão, dava uma piscada, e sumia. Era quase como se estivesse dando espaço — ou tramando algo pior. Num momento em que Luna foi ao banheiro, ele apareceu na cadeira vazia. "Ela é real, Ary. Pessoa de verdade. Com histórias de verdade. Com expectativas de verdade. Você vai ter que ser real também." Bebi o resto da cerveja. "Eu sei ser real", menti.


Saímos do bar depois de duas horas e ela perguntou se eu queria dividir um Uber até a Paulista, já que os caminhos eram parecidos. Aceitei. Dentro do carro, o silêncio voltou, mas agora era diferente — menos tenso, mais como um descanso compartilhado. Ela mexeu no celular, eu olhei pela janela, o motorista ouvia MPB baixinho. Quando o carro parou no sinal, Luna disse: "Gostei de você, Ary. Você é esquisito do jeito certo." Sorri. "Obrigado. Acho." Ela riu. "Foi elogio."



O caminho e o silêncio compartilhado
O caminho e o silêncio compartilhado

Cheguei em casa e fiquei um tempão sentado no escuro, processando. O amigo imaginário acendeu a luz da sala só para me irritar. "Ela gostou de você. Disse que você é esquisito do jeito certo. Isso é bom ou ruim?" Apoiei a cabeça no sofá. "Não sei. Mas acho que é bom." Ele sentou na poltrona. "E agora? Vai ter que ver ela de novo. E de novo. Até virar rotina. Até ela ver você de manhã sem café. Até descobrir que você conversa comigo." Pisquei. "Talvez ela entenda." Ele bufou.


No dia seguinte, acordei com uma mensagem dela: "Sobrevivi ao encontro. E você?" Respondi com uma foto do café e um "sobrevivi também". Depois abri o notebook e encarei o desafio do aplicativo de meditação. A Tânia tinha mandado um e-mail com mais detalhes: o app teria sessões guiadas, paisagens sonoras, um diário de gratidão. Tudo muito parecido com todos os outros. Onde estava a diferença? Fiquei andando pela sala, o amigo imaginário me seguindo como um cachorro transparente. "O app precisa sumir", repeti em voz alta. "Como assim?", ele perguntou. Parei. "Se ele sumir, a pessoa fica sozinha com a própria respiração. É isso que a meditação é."



Sete horas da manhã. Apartamento do Ary
Sete horas da manhã. Apartamento do Ary

Foi assim que nasceu o conceito. Um aplicativo que, depois de alguns usos, começava a reduzir as funcionalidades. No primeiro mês, todas as sessões guiadas disponíveis. No segundo, só as paisagens sonoras. No terceiro, só um cronômetro silencioso. No quarto, nada. Uma mensagem: "Você já tem o que precisa. Volte quando quiser recomeçar." Escrevi isso num fôlego só, e o amigo imaginário leu por cima do meu ombro sem fazer piada. "É bom", disse finalmente. "É muito bom."


Mandei a proposta para Tânia no fim da tarde. Ela respondeu no dia seguinte com um áudio de três minutos, a voz embargada em alguns trechos. "É exatamente o que eu queria dizer mas não sabia como. Um app que ensina a não precisar dele. Isso é tão... contraditório. Tão humano." Ouvi o áudio duas vezes. O amigo imaginário, que estava fazendo palavras-cruzadas invisíveis, levantou a cabeça. "Ela chorou?" Balancei a cabeça que sim. "Caramba. Você fez uma startup chorar."


Nas semanas seguintes, gravei o vídeo de lançamento do app. Usei a mesma ideia: no começo, imagens de pessoas com fones de ouvido, meditando em casa, no trabalho, no metrô. Depois, os fones sumiam. Depois, as pessoas apareciam meditando sem nada, apenas sentadas, de olhos fechados. No final, uma tela preta com a frase: "O melhor aplicativo de meditação é aquele que você não precisa mais abrir." A Tânia aprovou sem cortes.



Ary e Luna no parque Ibirapuera - São Paulo
Ary e Luna no parque Ibirapuera - São Paulo

Enquanto isso, Luna e eu continuamos nos vendo. Foram mais dois encontros em bares, um no cinema (ela escolheu uma comédia romântica) e uma tarde no Ibirapuera, onde ficamos deitados na grama olhando o céu e ela perguntou sobre minha família. Contei o mínimo, mas o mínimo foi mais do que eu contava para qualquer pessoa nos últimos dez anos. O amigo imaginário ficou rondando a árvore perto da gente, longe o suficiente para não atrapalhar, perto o bastante para não perder nada.


O vídeo do app foi ao ar num domingo à noite. Na segunda-feira, a Tânia mandou uma mensagem: cinquenta mil visualizações em 24 horas. Na quarta, duzentas mil. Na sexta, uma matéria num portal de tecnologia chamando o conceito de "revolucionário". O amigo imaginário positivo apareceu com uma taça de champanhe imaginária. "O vídeo mudou o projeto original do app. Devia ter cobrado mais." O negativo, encolhido no canto, resmungou: "Agora toda startup de bem-estar vai querer a mesma coisa." Deixei os dois discutindo e fui para a janela.


Lá embaixo, a cidade fervia. Carros, pessoas, luzes, silêncio dentro do barulho. Pensei no Edgar, na Márcia, na Tânia, em todos que tinham passado pelo meu caderno nas últimas semanas. Pensei em Luna, que naquele momento estava em casa com a gata Yoko, talvez pensando em mim. O amigo imaginário apareceu no reflexo do vidro. "Você tá diferente", disse. "Como assim?" Ele deu de ombros. "Menos sozinho. Mesmo quando estou aqui." Fiquei olhando para o reflexo dele, para o meu, para a cidade atrás. "Acho que é isso", respondi. "Acho que é exatamente isso.”


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