JOB #05 - JUREMA E SUA CASA
- Will Silva

- há 3 dias
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O telefonema veio num domingo à noite, quando eu estava terminando de lavar a louça do jantar e pensando se respondia ou não a mensagem da Luna. Número desconhecido. Atendi por pura distração — e dei de cara com uma voz de mulher mais velha, pausada, com aquele sotaque puxado do interior que eu não ouvia desde que saí de Minas, há vinte e cinco anos. "Ary? Meu nome é dona Jurema. Seu Beto me passou seu contato. Preciso de uma ajuda com uma história."
Dona Jurema tinha 78 anos, morava sozinha num sítio perto de Piracicaba, e queria um vídeo para contar a história da família antes que "a memória fosse embora de vez". Ela falava devagar, como quem escolhe cada palavra com cuidado, e no fundo dava para ouvir grilos e o silêncio largo do campo. O amigo imaginário apareceu sentado na pia, secando um prato invisível. "Velha no sítio sozinha. Quer contar história. Cheirinho de casa assombrada." Ignorei e continuei ouvindo.
A história que dona Jurema queria contar era a da casa dela. Uma construção de 1920, feita pelo avô imigrante italiano, que viu nascer quatro gerações da família. "Meus filhos não querem saber", ela disse, a voz tremendo um pouco. "Foram pra cidade, viraram gente de apartamento. Dizem que casa velha dá trabalho. Mas a casa guarda tudo, Ary. Os retratos, as cartas, o cheiro do meu pai. Alguém precisa guardar isso antes que eu vá também."
Desliguei o telefone e fiquei olhando para a parede da cozinha. O amigo imaginário tinha parado de secar a louça e me observava com uma expressão estranha. "Você vai pegar esse trabalho? Viajar pro meio do nada, entrar na casa de uma desconhecida, filmar fantasma de família?" Enxuguei as mãos no pano. "Vou. Ela me lembrou alguém." Ele não perguntou quem. Mas eu sabia. Lembrou minha avó, a última pessoa que me abraçou antes de eu fugir de Minas sem olhar para trás.

Na segunda-feira, contei para o Beto que aceitaria o trabalho. Ele ficou animado — "finalmente um projeto com história de verdade" — e já começou a pensar na logística. Eu, por outro lado, não conseguia tirar da cabeça a imagem da casa. Como seriam as paredes depois de cem anos? O que elas teriam escutado? O amigo imaginário, que não largava do meu pé desde o telefonema, sentou na borda da mesa. "Você não vai só filmar uma casa. Você vai filmar tudo que largou quando saiu de lá." Guardei o celular no bolso. “Piracicaba não é Minas.”
Luna percebeu que eu estava diferente. No nosso quinto encontro — um jantar num coreano escondido na Liberdade — ela parou de comer e me olhou por cima dos hashis. "O que tá acontecendo?" Contei sobre dona Jurema, sobre a casa, sobre Minas sem entrar em detalhes. Ela ouviu em silêncio, depois pegou minha mão por cima da mesa. "Imagino que a história que te fez sair de lá seja o fantasma na sua cabeça." O amigo imaginário, que estava espiando por trás de uma planta do restaurante, fez uma careta. "Ela é boa demais. Desconfia."
Passei a semana preparando o projeto. Não era um briefing comum — dona Jurema não tinha "dor de cliente", não queria vender nada. Ela queria eternizar. Isso me desconcertava mais do que qualquer exigência comercial. Como se faz um vídeo para alguém que não quer resultado, só memória? Rabisquei no caderno: "A CASA É UM CORPO / paredes têm pulso / janelas respiram / o tempo mora nos rodapés". O amigo imaginário leu e, pela primeira vez, não fez piada.
Na quinta-feira, recebi uma mensagem de dona Jurema com fotos da casa. Era bonita — não no sentido de cartão-postal, mas no sentido de verdadeira. Tijolos à vista, janelas azuis desbotadas, um pé de jabuticaba no quintal. Dentro, móveis escuros, retratos na parede, uma máquina de costura antiga. Fiquei olhando cada foto como quem examina um rosto. O amigo imaginário apareceu atrás de mim. "Parece a casa da sua avó?" Balancei a cabeça. "Parece. Mas não é."
No sábado, aluguei um carro e fui. Três horas de estrada, o asfalto virando terra, os prédios dando lugar a árvores. O amigo imaginário ocupou o banco do passageiro, os pés no painel. "Última chance de desistir. Diz que o carro quebrou." Apertei o volante. "Vou até o fim." Ele suspirou. "Você que sabe."

Dona Jurema me esperava no portão. Era pequena, magra, cabelo branco preso num coque, avental florido. Me abraçou como se me conhecesse há anos — um abraço apertado, demorado, que me desarmou por completo. "Ary, finalmente. Entra, entra. A casa tá te esperando." O amigo imaginário, que vinha atrás de mim, parou no portão. Não entrou. Ficou lá, olhando, como se respeitasse um limite que eu nem sabia que existia.

A casa era exatamente como nas fotos, mas mais. Mais cheiros — café, terra, flor de laranjeira. Mais sons — o rangido do assoalho, o tique-taque de um relógio de parede, o canto de um bem-te-vi. Mais presença. Dona Jurema me levou para conhecer cada cômodo, contando histórias em cada porta. "Aqui minha mãe costurava vestido de noiva. Aqui meu irmão quebrou o braço caindo da escada. Aqui meu pai leu a carta que comunicou a morte do meu avô." Eu só ouvia, anotando mentalmente, sentindo a pele arrepiar.
No segundo dia, comecei a filmar. Não usei roteiro — só deixei a câmera andar pela casa, captando luz, sombra, detalhes. A xícara na pia, o terço na cabeceira, a máquina de costura com um pano ainda enfiado, como se tivesse parado no meio do trabalho. Dona Jurema sentava em cada cômodo e contava histórias sem eu precisar perguntar nada. Era como se a casa falasse por ela.
O amigo imaginário apareceu na varanda no fim da tarde do segundo dia. Tinha entrado finalmente, mas parecia menor, mais discreto. "Ela é real, né?" Sentei na rede. "É." Ele balançou a cabeça. "E essa casa é real. E essa história é real. E você tá aqui, no meio de tudo, sem filtro. Sem personagem. Sem disfarce." Olhei para o quintal, onde dona Jurema regava as plantas. "Parece que sim."
Na noite do terceiro dia, depois de filmar o pôr do sol da varanda, dona Jurema me chamou para sentar na cozinha. Fez um café e ficamos os dois em silêncio, escutando os grilos. Depois de um tempo, ela disse: "Você tem uma casa também, não tem? Um lugar que deixou para trás." O amigo imaginário, encostado no fogão, ergueu uma sobrancelha. Respirei fundo. "Tive. Faz muito tempo." Ela não perguntou mais. Só colocou a mão no meu braço e sorriu.

No quarto dia, filmei as últimas cenas e me despedi. Dona Jurema me deu um pote de goiabada caseira e um abraço que durou um minuto inteiro. "Você volta, Ary. Pra me mostrar o vídeo. E pra tomar café de novo." Prometi que sim. Na estrada de volta, o amigo imaginário ficou quieto no banco do passageiro, olhando pela janela. Só quando a cidade começou a aparecer no horizonte ele falou: "Ela é como você." Segurei o volante. "Como assim?" "Também mora sozinha. Também conversa com fantasmas. Só que os dela são de verdade."
Levei duas semanas para editar o vídeo. Não usei trilha sonora dramática, nem efeitos, nem nada. Só as imagens da casa, a voz de dona Jurema contando histórias, e os silêncios entre uma história e outra. No final, coloquei uma dedicatória: "Para todas as casas que nos esperam." O amigo imaginário assistiu comigo na sala, sem comentários. Quando acabou, ele pigarreou. "Ficou bom." Era a primeira vez que ele elogiava sem ironia.
Voltei ao sítio no sábado seguinte, com o vídeo no notebook. Dona Jurema chamou os vizinhos, uma filha que veio da cidade, um neto adolescente que mexeu no celular o tempo todo. Passamos o vídeo na televisão da sala, todo mundo em silêncio. Quando acabou, a filha estava chorando. O neto tinha guardado o celular. Dona Jurema me olhou e disse: "É isso. É exatamente isso. A casa tá aí para sempre agora."
Na volta para São Paulo, parei o carro no acostamento em algum lugar entre Piracicaba e a capital. Desci, fiquei olhando o horizonte, o amigo imaginário ao meu lado. "Tá pensando no quê?" Apoiei no capô. "Na minha avó. Na casa dela. Em tudo que deixei lá." Ele ficou em silêncio um tempo. "Ainda dá tempo, né?" Olhei para o céu, que começava a escurecer. "Não. Achei que daria. Mas não deu."
Na segunda-feira, mandei mensagem para Luna: "Preciso te contar uma coisa." Ela respondeu na hora: "Pode ser hoje?" Fomos ao mesmo bar do primeiro encontro. Contei tudo — Minas, a avó, a casa, os vinte anos sem voltar. Ela ouviu sem interromper. Quando terminei, ela pegou minha mão. "E você quer voltar?" Olhei para o balcão, para o espelho atrás, onde o amigo imaginário aparecia pequeno no reflexo. "Acho que sim." Ela sorriu. "Você tem que ir. Ela não vai estar mais lá, mas todo resto vai."
Na quarta-feira, comprei passagem para Minas. Ônibus, porque avião não vai pra cidade pequena. O amigo imaginário sentou na cama enquanto eu fazia as malas. "Você tem certeza?" Fechei o zíper. "Não. Mas vou mesmo assim." Ele balançou a cabeça. "Então eu vou junto." Peguei a mochila. "Claro que vai. Você nunca me larga." Ele riu — uma risada diferente, mais leve. "É. Acho que não largo mesmo."
A cidade era menor do que eu lembrava. As ruas de paralelepípedo, a praça com os mesmos bancos, a igreja no centro. A casa da minha avó ficava no fim de uma rua de terra, com um pé de magnólia na frente. Parei no portão e fiquei olhando. O amigo imaginário apareceu ao meu lado. "Parece que encolheu." Balancei a cabeça. "A gente que cresceu."

Uma mulher saiu na varanda. Não conheci de início — depois vi que era uma vizinha, dona Célia, que morava ao lado quando eu era criança. Ela me reconheceu antes que eu falasse qualquer coisa. "Ary? Meu Deus, Ary, você voltou?" Desci do carro, as pernas bambas. Ela veio me abraçar. "Sua avó faleceu ano passado, meu filho. Mas a casa tá lá. Ninguém mexeu em nada. Ela deixou tudo do mesmo jeitinho."
Dona Célia me deu a chave. Entrei sozinho. O amigo imaginário ficou na varanda — pela segunda vez, respeitando um limite que eu começava a entender. A casa cheirava a mofo e saudade. Os móveis cobertos com lençóis, os retratos na parede, a máquina de costura igual à de dona Jurema. Sentei no sofá da sala e chorei. Chorei vinte e cinco anos num minuto.

Passei três dias na cidade. Limpei a casa, arejei os cômodos, conversei com vizinhos que lembravam de mim. No último dia, tirei um retrato da avó da parede — ela jovem, no quintal, com um vestido estampado. Guardei na mochila. O amigo imaginário apareceu na varanda enquanto eu trancava a porta. "Vai voltar?" Olhei para a casa, para a magnólia, para o céu do interior. "Acho que não. Essa foi a última parte dessa história."
Cheguei em casa e encontrei uma mensagem da Luna: "E aí, mineiro? Sobreviveu?" Respondi com uma foto do retrato da avó na parede da sala. Ela mandou um coração. Depois: "Posso ir conhecer a nova decoração?" Ri sozinho. O amigo imaginário sentou no sofá. "Ela vem aqui? Agora?" Guardei o celular. "Amanhã." Ele suspirou. "Então vou ter que arrumar a sala." Levantei uma sobrancelha. "Você arruma a sala?" Ele deu de ombros. "Posso aprender."
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