JOB #06 - BOLO SALGADO
- Will Silva

- há 3 dias
- 5 min de leitura

O telefone tocou numa terça-feira à tarde, quando eu estava terminando de revisar o roteiro do último vídeo da dona Jurema — a série sobre os vizinhos tinha virado um projeto de longo prazo, e eu estava gostando mais do que imaginava. Era o Beto, com a voz animada que ele usa quando acha que descobriu ouro. "Ary, cliente novo. Empresa grande, daquelas de tecnologia. Querem um mini documentário de cada funcionário — uns 50 vídeos pra colocar no site. Contar a história de cada um, humanizar a marca. É grana gorda, cara."
Fiquei em silêncio por um momento, olhando pela janela. O amigo imaginário apareceu sentado no parapeito, as pernas balançando. "Cinquenta funcionários. Cinquenta histórias. Cinquenta egos para administrar." Ignorei e respondi ao Beto: "Não vou pegar." Do outro lado da linha, silêncio. "Como assim não vai pegar? É o maior job do ano!" Respirei fundo. "Beto, eu tô numa fase diferente. Quero produzir só quando tiver tempo de verdade. Tempo de entrar na história, de sentir. Esse job é linha de montagem."
O Beto tentou argumentar, listou números, falou em visibilidade, em currículo. Eu ouvi, educado, mas minha cabeça estava em outro lugar. Desliguei o telefone com a promessa de "pensar melhor" e fiquei olhando para a sala com outros olhos.
O amigo imaginário saltou do parapeito e veio flutuar na minha frente. "Você recusou um job de cinquenta vídeos?" Levantei da cadeira. "Não recusei. Só disse que não é o momento." Ele riu. "É a mesma coisa." Passei a mão no cabelo. "Escolhi ter uma vida. Isso é diferente." Ele cruzou os braços. "Veremos."
Lavei roupa de cama. Fazia tempo que eu não trocava o lençol. Normalmente, só trocava quando começava a sentir cheiro de travesseiro velho. Dessa vez, lavei, passei (sim, passei), e coloquei na cama com um cuidado de quem prepara altar. O amigo imaginário sentou na cama recém-arrumada e disse: "Ela pode nem reparar." Sentei ao lado. "Eu reparo. Isso que importa."
Fiz compras. Comida que eu não como sozinho: queijo gouda (porque uma vez ela disse que gostava), pão de fermentação natural (o caro, o que parece artesanal), um vinho que o moço da loja recomendou. Levei tudo pra casa e organizei na geladeira como quem faz curadoria. O amigo imaginário abriu a geladeira e ficou olhando. "Tem mais comida aqui do que nos últimos seis meses." Fechei a porta. "Sei."

No meio da tarde, o Beto mandou mensagem de novo. "A empresa aumentou a proposta. Querem fechar hoje." Olhei pro celular, depois pro apartamento, depois pro amigo imaginário, que arqueou uma sobrancelha. Respondi: "Beto, tô preparando o apê pra receber a Luna. Não consigo pensar em trabalho agora." Ele mandou um joinha, mas eu senti a decepção pelo texto. Guardei o celular e voltei a organizar os livros na estante por cor, só pra ter o que fazer com as mãos.
O amigo imaginário sentou no sofá, pernas cruzadas. "Você nunca preparou nada pra ninguém." Arrumei um livro azul ao lado de um verde. "Nunca tive motivo." Ele ficou quieto um tempo. "E se ela não vier?" Parei com o livro no ar. "Por que não viria?" Ele deu de ombros. "Imprevistos. Desistência. Arrependimento." Coloquei o livro na estante com força. "Você sempre tem que estragar tudo?"
Luna ia vir às 16h. Às 15h eu já estava pronto — banho tomado, roupa escolhida (camisa de linho clara, a mesma do churrasco), apartamento impecável. Fiquei andando de um lado pro outro, verificando se a cerveja estava gelada, se o vinho não precisava de adega, se o queijo estava no ponto. O amigo imaginário me observava com um sorriso contido. "Parece noivo esperando no altar." Sentei no sofá. "Pior. Parece eu esperando a vida começar."
15h30. Peguei o celular, mandei uma mensagem: "O interfone está com defeito. Às vezes não funciona. Manda uma mensagem quando estiver chegando que te espero lá embaixo." Ela viu a mensagem e não respondeu nada. Normal, talvez ela não pudesse responder naquele momento. Guardei o celular, fui pra varanda, fiquei olhando a rua. O movimento: famílias indo pro parque, casais de mãos dadas, entregadores de aplicativo. Gente vivendo.
16h. Nada. Mensagem não respondida. Mando um oi? Melhor não. Fiquei mais cinco minutos na varanda, depois voltei pra sala. O amigo imaginário estava no mesmo lugar, na poltrona. "Atraso normal." Sentei no sofá. "É. São Paulo, trânsito." Peguei o celular de novo. Nada.

16h30. Já tinha ido à varanda seis vezes. A cerveja suava na mesa. O queijo começava a suar também. O amigo imaginário levantou e veio sentar ao meu lado. "Liga." Peguei o celular, disquei. Chamou. Chamou. Caiu na caixa postal. Desliguei sem deixar recado.
17h. Mais uma ligação. Caixa postal de novo. Comecei a criar cenários na cabeça: acidente, emergência, arrependimento. O amigo imaginário colocou a mão no meu ombro — fria, transparente, mas presente. "Ela não vem." Olhei pra ele. "Ainda não sabemos." Ele balançou a cabeça. "Já sabemos."
18h. O sol começava a baixar, a luz da sala mudando de cor. Levantei, guardei a cerveja na geladeira, cobri o queijo, fechei o vinho. O amigo imaginário me ajudou em silêncio — o que é irônico, porque ele não pode pegar em nada. Mas ficou perto. Fiquei um tempão na cozinha, olhando a pia, o fogão, a porta da geladeira com o desenho de Theo. O menino que via fantasmas.
19h. Escureceu. Acendi a luz da sala e fiquei sentado no sofá, olhando pro nada. O amigo imaginário estava na poltrona, em silêncio também. Depois de um tempo, ele falou: "Você preparou tudo. Organizou a comida, arrumou a casa, escolheu a roupa. Recusou um trabalho. Que mané..." Olhei bem pra ele enquanto abria a cerveja. "Foi melhor assim."

20h. O celular vibrou. Peguei rápido, coração acelerado. Era uma mensagem da Luna: "Ary, desculpa. Não vou conseguir ir. Aconteceu uma coisa. Depois te explico." Fiquei olhando pra tela. Três pontinhos apareceram. Sumiram. Apareceram de novo. Depois, nada. Ela ficou online, offline, online. Não mandou mais nada.
O amigo imaginário levantou e veio sentar ao meu lado. "O que você vai responder?" Guardei o celular no bolso. "Nada. Agora não." Ele balançou a cabeça. "Boa escolha." Ficamos em silêncio mais um tempo. Depois ele disse: "Quer que eu faça piada? Pra aliviar?" Quase sorri. "Pode ser." Ele pigarreou. "Pelo menos você vai ter tempo para terminar o Job.”
Levantei, fui até a geladeira, peguei o queijo. Abri, cortei um pedaço, comi em pé na cozinha. O amigo imaginário ficou me olhando da porta. "É bom mesmo." Mastiguei devagar. "É." Peguei a cerveja, abri, bebi no gargalo. Coisa que eu não faria se ela estivesse aqui. O amigo imaginário sorriu. "Tem vantagens."
Mandei uma mensagem de texto para o Beto. "Pode aceitar a proposta dos 50 vídeos."
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