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JOB #07 - A SURPRESA DE SUZETE

140 horas de edição e 1,5 Terabytes de material bruto
140 horas de edição e 1,5 Terabytes de material bruto

Os cinquenta vídeos tomaram três meses da minha vida. Três meses ouvindo histórias de funcionários de uma empresa de tecnologia — gente que veio do Nordeste, que trocou o campo pela cidade, que aprendeu a programar sozinha vendo tutorial no YouTube. O amigo imaginário sentava no canto do estúdio durante as gravações e fazia anotações invisíveis. "Esse aqui chora no minuto três. Aquele ali segura o choro até o final e desaba no carro." Ele acertava todas.


A imersão foi deliberada. Depois do sábado em que Luna não veio, depois do silêncio que se seguiu, eu precisava de ocupação. O Beto ficou surpreso quando eu aceitei o job — "pensei que você tava numa fase diferente" — mas não questionou. Só mandou o contrato e me desejou sorte. O amigo imaginário, que me via editando até as 2h da manhã, comentou: "Você está fugindo de novo." Respondi que não, estava trabalhando. Ele riu.


No segundo mês, percebi uma coisa: as histórias dos funcionários se conectavam. O cara que entrou na empresa quando ela era uma sala com três computadores. A mulher que implementou o primeiro sistema de vendas. O estagiário que virou diretor. Juntei os depoimentos como peças de um quebra-cabeça e, numa noite insone, montei uma linha do tempo da empresa. No dia seguinte, propus ao dono: "E se eu fizer, além dos cinquenta vídeos individuais, um filme de duas horas contando a história completa? Usando os relatos de quem viveu cada fase." Ele topou na hora.


O filme ficou pronto três semanas depois da entrega dos vídeos individuais. O dono da empresa me chamou no escritório dele, assistiu em silêncio, e quando acabou, ficou me olhando sem falar nada por uns dez segundos. Depois abriu o notebook, fez uma transferência e mostrou a tela: "Isso é um extra. Pelo que você fez." Era o dobro do valor combinado. O amigo imaginário, que estava espiando atrás da estante, assobiou. "Agora você estourou."


O dinheiro entrou na conta e eu senti... nada. O que eu queria mesmo era mandar uma mensagem para Luna contando que tinha feito um filme de duas horas, que tinha ganhado um extra, que estava diferente. Peguei o celular, abri a conversa. A última mensagem ainda era a dela: "Ary, desculpa. Não vou conseguir ir. Aconteceu uma coisa. Depois te explico."


Digitei: "Oi, tudo bem? Queria te contar uma coisa." Enviei. O círculo ficou azul. Depois, um visto. Depois, nada. Esperei uma hora. Duas. No dia seguinte, mandei outra: "Luna?" Dessa vez, não ficou azul. A mensagem ficou cinza, com um aviso: "Mensagem não entregue." Tentei ligar. Chamou uma vez e caiu. Na segunda tentativa, já ia direto para a caixa postal.


O amigo imaginário apareceu sentado na mesa. "Ela te bloqueou." Guardei o celular. "Pode ser problema no aparelho." Ele balançou a cabeça. "Ary. Ela te bloqueou." Sentei na poltrona e fiquei olhando para a parede. O silêncio do apartamento parecia mais grosso do que antes.


A mensagem que trazia um novo Job
A mensagem que trazia um novo Job

O telefone tocou numa segunda-feira chuvosa, daquelas que fazem São Paulo parar e os aplicativos de trânsito ficarem vermelhos do começo ao fim. Era o Beto, com a voz que ele usa quando o cliente é especial. "Ary, tenho um job diferente. Uma mulher chamada Suzete quer fazer um vídeo para os pais. Eles vão completar sessenta anos de casados, e ela quer uma surpresa: um vídeo com depoimentos da família inteira, pra passar na festa. Ela disse que não quer nada profissional demais, quer algo 'de família mesmo', mas com seu olhar."


O amigo imaginário apareceu sentado na poltrona, secando o cabelo invisível com uma toalha invisível. "Sessenta anos de casados. Isso é tipo... desde 1964? Esses dois sobreviveram à ditadura, à hiperinflação, ao Collor, e ainda estão juntos. Merecem um Oscar." Ignorei e anotei os detalhes: Suzete, 54 anos, professora aposentada, primeira de três irmãos. Os pais, Seu Jorge e Dona Nilza, 85 e 82 anos, moram no Tatuapé, na mesma casa há cinquenta anos. A festa seria no próximo sábado, e ela queria tudo pronto até lá.


Bairro do Tatuapé - São Paulo
Bairro do Tatuapé - São Paulo

Peguei o metrô até o Tatuapé na terça-feira de manhã. A casa era uma daquelas de vila, com quintal nos fundos e um pé de limão na frente. Suzete me recebeu com um abraço apertado e um cheiro de bolo de fubá que vinha da cozinha. "Ary, que bom que você veio. A casa é simples, mas tem história." Ela me levou para a sala, onde fotos cobriam uma parede inteira: casamento, filhos pequenos, netos, viagens, churrascos. "Meu pai foi motorista de caminhão a vida inteira. Minha mãe, costureira. Criaram três filhos com dignidade, mesmo nos anos difíceis."


O amigo imaginário flutuou pela sala, examinando as fotos. "Olha esse aqui, com cabelo black power nos anos 70. E essa aqui, na praia, parece até foto de novela." Sentei no sofá e comecei a planejar. "Suzete, a ideia é entrevistar todo mundo: filhos, netos, talvez alguns vizinhos, amigos. Quem são as pessoas mais importantes na vida deles?" Ela sorriu. "Tem o compadre Zé, que viajou com meu pai por trinta anos. Tem a vizinha dona Maria, que é amiga da minha mãe desde que mudaram pra cá. E tem os netos, claro. O caçula, Pedro, de oito anos, é o xodó do meu pai."


Passei a tarde anotando nomes, histórias, detalhes. Suzete me contou que os pais quase se separaram nos anos 80, quando Seu Jorge perdeu o emprego e passou meses bebendo. "Minha mãe segurou a barra. Costurava dia e noite, vendia roupa na feira. Um dia, ela chegou pra ele e disse: 'Você pode afundar, mas eu vou remar sozinha com os filhos.' Foi o choque que ele precisava. Parou de beber, arrumou outro emprego, e nunca mais olhou pra trás." O amigo imaginário assobiou. "Essa mulher é de ferro."


Na quarta, comecei as filmagens. Primeiro, os filhos: Suzete, o irmão do meio (Marcelo, 52, contador) e a caçula (Cristina, 48, dentista). Cada um sentado num canto da casa, contando memórias. Marcelo lembrou das viagens na carroceria do caminhão, dormindo sob as estrelas. Cristina chorou ao falar do vestido de formatura que a mãe fez à mão, com tanto capricho que parecia comprado. Suzete, a mais velha, contou do dia em que o pai chegou em casa com uma televisão em preto e branco, a primeira da rua. "A vizinhança inteira veio assistir. Parecia cinema."


Entrevista com Marcelo (filho)
Entrevista com Marcelo (filho)

O amigo imaginário ficava num canto, ouvindo tudo com atenção incomum. Depois da terceira entrevista, ele me puxou num canto. "Ary, tem uma coisa estranha aqui." Franzi a testa. "O quê?" Ele apontou para a ponta do sofá, onde uma foto de um jovem de uniforme militar estava pendurada. "Esse rapaz. Quem é?" Chamei Suzete e perguntei. Ela olhou para a foto e seu rosto mudou. "É o Roberto. Meu irmão mais velho. Morreu em 1979, num acidente de moto. Tinha dezenove anos." O amigo imaginário me cutucou. "Ele tá ali. No canto da sala. Olhando pra gente."


Gelei. Olhei para o ponto que ele indicava, mas não vi nada. Apenas a parede, o sofá, a luz da tarde entrando pela janela. Suzete continuou: "Meus pais nunca superaram. Minha mãe ainda acende vela pra ele todo dia 2 de novembro. Meu pai não fala no assunto." Engoli seco. "E vocês, os irmãos, como lidam?" Ela suspirou. "A gente aprendeu a conviver com a ausência. Sentimos como se ele estivesse aqui, sabe? Mesmo não estando."


Roberto da Silva Soares - filho falecido
Roberto da Silva Soares - filho falecido

O amigo imaginário sustentou o olhar para aquele canto vazio por mais alguns segundos, depois virou-se para mim com uma expressão que eu nunca tinha visto — algo entre espanto e reconhecimento. "Ele tá acenando", murmurou. Minha mão suou no cabo da câmera. Pensei: Se meu amigo imaginário conseguia ver o fantasma do Roberto, isso significava o quê? Que ele também era um fantasma? Que eu passei vinte anos conversando com um morto sem saber? A pergunta ficou pulsando na minha cabeça como um terceiro batimento cardíaco, mas Suzete já me chamava para filmar a próxima entrevista na cozinha. Decidi lidar com isso depois — guardei a questão num canto da mente, junto com todas as outras que eu evitava há décadas, e segui o trabalho. O Roberto que esperasse mais um pouco.


Na sexta à noite, terminei a edição. O vídeo tinha quarenta minutos, com depoimentos, fotos antigas, músicas que marcaram a vida do casal. No final, coloquei uma mensagem de todos os filhos juntos: "Mãe, pai, obrigado por terem nos ensinado que amor é coisa que se constrói todo dia, mesmo nos dias ruins." O amigo imaginário assistiu comigo e, quando acabou, comentou. “Engraçado o Roberto não aparecer nas filmagens.”


Editando o filme
Editando o filme

Achei a oportunidade perfeita para retomar essa questão e quis saber se a voz também era um espírito. “Cala a Boca! Se você pudesse ver espírito teria visto o Roberto”. Fez sentido? Mais ou menos. Mas estava cansado demais pra seguir a argumentação. 


No sábado, fui à festa. Era um almoço no salão da igreja, com direito a bufê, banda de baile e uma multidão de parentes. Seu Jorge e Dona Nilza chegaram sem saber de nada, achando que era um churrasco de família. Quando as luzes se apagaram e o vídeo começou a passar no telão, Dona Nilza segurou a mão do marido. Durante quarenta minutos, a família inteira chorou, riu, se emocionou. No final, quando os filhos apareceram juntos na tela, Dona Nilza levantou e abraçou cada um, soluçando.


Na segunda-feira, Suzete me mandou uma mensagem: "Ary, não tenho palavras. Meus pais disseram que foi o melhor presente da vida deles. A senhora Nilza quer saber se você pode ir lá tomar um café um dia. Disse que você tem 'olho de anjo'." O amigo imaginário, que estava lendo por cima, riu. "Olho de anjo. Que merda isso quer dizer?”


Passei a tarde pensando na experiência com o fantasma do Roberto.  Ele estava preso a história da sua família. Ele não conseguia começar escrever outra história da sua existência. E isso me remeteu como muitas vezes nos tornamos reféns de histórias que nos negamos de deixar de acompanhar.


  Peguei o caderno e escrevi: "O FANTASMA DE ROBERTO / quarenta anos preso em uma história / O VÍDEO DA FAMÍLIA / não era só uma surpresa / AMOR É PRESENÇA / depois da morte." O amigo imaginário leu e, não fez piada.


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