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JOB #08 - O BEIJO NA PLATAFORMA

Cadê os Jobs?
Cadê os Jobs?

A semana sem trabalho chegou como uma daquelas garoas finas que molham a gente sem a gente perceber — primeiro estranhei, depois aceitei, no terceiro dia já estava andando pela sala feito bicho enjaulado. O amigo imaginário ocupava a poltrona com um livro invisível, virando páginas em intervalos regulares só para me provocar. "Calma, Ary. É só uma semana. Seu cérebro precisa de férias." Parei de andar e apontei o dedo para ele. "Você sabe que não é férias. É vazio. O Beto sumiu, os clientes sumiram, e eu tô aqui, conversando com um amigo imaginário aos 47 anos. Dá um tempo.”


O amigo fechou o livro imaginário com um tapa seco. "Você está fazendo um drama a toa. A conta tem o suficiente para uns 5000 dias sem trabalho.“ Sentei no sofá, a cabeça latejando. Depois do vídeo da família, os trabalhos secaram. Será que é maldição?" Ele revirou os olhos de um jeito tão humano que quase me fez rir. "Maldição não existe. Existe mercado. Existe sazonalidade. Existe você criando paranoia."


Sem emails, sem mensagens. A caixa de entrada, antes um fluxo constante de briefings e propostas, agora parecia um deserto digital. Até o Beto estava estranho, quieto — ele que sempre mandava mensagem de bom dia com algum meme, sumiu. Respondi ao silêncio com mais silêncio, e no quarto dia, quando o apartamento já parecia ter encolhido uns dois metros quadrados, tomei uma decisão. "Vou fazer checkup. Completo. Há anos que não vou ao médico."


Marquei tudo pelo aplicativo do plano — consultas com clínico geral, cardiologista, dermatologista, até um urologista que o amigo imaginário chamou de "intruso". Na sexta-feira, depois de uma semana de exames, radiografias e amostras de sangue, sentei na sala do doutor Sérgio, que também era médico do Beto, para ouvir os resultados. O consultório era pequeno, mas acolhedor: parede amarela, uma prateleira com livros de poesia, um quadro de Van Gogh na parede. O amigo imaginário sentou no sofá ao lado, fingindo interesse.


O doutor Sérgio era um homem de uns cinquenta anos, barba grisalha, olhos miúdos atrás dos óculos de armação fina. Examinou meus exames com calma, fez algumas anotações, e finalmente disse: "Seu corpo está em ordem, Ary. Colesterol um pouco alto, mas nada que dieta não resolva. Pressão boa. Coração funcionando. Para um homem de 47 anos que passou os últimos vinte sentado numa cadeira, você está surpreendentemente bem." Suspirei aliviado. O amigo imaginário bateu palmas silenciosas.


Consulta médica com o doutor Sérgio
Consulta médica com o doutor Sérgio

Mas o doutor Sérgio não parou aí. Tirou os óculos, apoiou os cotovelos na mesa e me olhou com uma curiosidade que ia além do protocolo médico. "Posso te perguntar uma coisa fora do protocolo?" Balancei a cabeça. "O Beto me contou o que você faz. Esses vídeos, essas histórias. Eu... tenho um projeto pessoal. Há anos quero fazer uns vídeos sobre medicina humanizada, sobre a relação médico-paciente, mas nunca encontro tempo. Nem cabeça. Precisava de alguém para me ajudar a pensar. Alguém que entendesse de narrativa." Ele hesitou. "Você toparia?"


O amigo imaginário levantou a sobrancelha. "Olha só. O médico quer ser artista." Ignorei e perguntei: "Que tipo de vídeo?" Doutor Sérgio abriu um sorriso tímido. "Não sei ainda. Pode ser uma série, pode ser um documentário. Quero mostrar o que a gente sente quando ouve um diagnóstico, quando precisa dar uma notícia ruim, quando segura a mão de alguém que vai morrer. A medicina tem uma poesia escondida, Ary. Eu queria que alguém me ajudasse a encontrar as palavras."


Fechamos um valor mensal na hora. O amigo imaginário assobiou quando saímos do consultório. "Parabéns. Você virou consultor criativo de médico. Agora vai ter que aprender jargão e tudo." Entramos no metrô na estação Santa Cruz, lotada como sempre. O vagão balançava, gente apertada, aquele cheiro de suor e desodorante barato. Segurei no corrimão e fiquei olhando o túnel passar.


Foi então que eu vi. Na estação seguinte, Paraíso, as portas se abriram e a multidão começou a trocar de lugar. E no meio dela, parada na plataforma, estava Luna. Ela usava um vestido florido, o cabelo roxo solto, e estava nos braços de um homem — moreno, alto, barba por fazer. Eles se beijavam. Não um beijo de selinho, de despedida. Um beijo demorado, de quem se conhece, de quem tem intimidade. A mão dele na cintura dela. A mão dela no peito dele.


Descobrindo a verdade sobre Luna
Descobrindo a verdade sobre Luna

O mundo parou por um segundo. O amigo imaginário grudou no vidro do metrô. "É ela." As portas começaram a fechar. Luna abriu os olhos por um instante, o rosto virado na direção do vagão, e por uma fração de segundo nossos olhares se encontraram. Depois as portas fecharam, o metrô partiu, e ela ficou para trás, nos braços do outro.


O amigo imaginário flutuou ao meu lado, a expressão mais séria do que eu já tinha visto. "Ary." Não respondi. "Ary, ela não estava ocupada ou sumida. Ela estava com ele." Continuei calado. O metrô sacolejava, gente entrava e saía, a vida seguindo. Dentro de mim, alguma coisa quebrou.


Cheguei em casa, joguei as chaves na mesa, sentei no sofá e fiquei olhando para a parede. O amigo imaginário sentou na poltrona, em silêncio. Depois de um tempo, ele disse: "Ela te bloqueou porque estava com ele. Desde o começo, talvez." Peguei o celular, abri a conversa. A última mensagem ainda era a minha: "Luna?" O aviso de não entregue ainda estava lá. Ela me bloqueou enquanto estava com ele. Enquanto se beijavam. Enquanto eu preparava queijo gouda e arrumava livros por cor.


Chaveiro de Ary
Chaveiro de Ary

O amigo imaginário veio sentar ao meu lado. "Você quer que eu fale alguma coisa?" Negativo com a cabeça. "Quer que eu fique calado?" Balancei que sim. Ele ficou. Ficamos os dois no escuro, vendo a noite cair pela janela, sem precisar de palavras. Às vezes, o silêncio compartilhado é a única coisa que segura a gente.


No dia seguinte, o Beto mandou mensagem. Depois de uma semana em silêncio, ele apareceu com um áudio de quase dois minutos. "Ary, preciso te pedir desculpas pelo sumiço. Aconteceu uma coisa, tive que viajar às pressas. Tem um novo job, um cliente muito especial, mas queria conversar pessoalmente. Podemos nos encontrar amanhã? No mesmo bar da Vila Madalena?"


O amigo imaginário ouviu o áudio comigo e franziu a testa. "Viajar às pressas? Cliente especial? Conversa pessoalmente? Cheiro de problema." Guardei o celular. "Ou cheiro de oportunidade. Depois de ontem, qualquer coisa que me tire de casa é bem-vinda." Ele me olhou com uma pena que doeu mais do que qualquer piada. "Você vai superar, Ary." Levantei do sofá. "Vou. Já superei.” Só que não.


No bar da Vila Madalena, o mesmo do primeiro encontro com Luna, sentei numa mesa perto da janela e pedi uma cerveja. O amigo imaginário ocupou a cadeira em frente, os olhos vagando pelo salão. "Lugar carregado de memória." Não respondi. O Beto chegou dez minutos depois, sentou, pediu um copo, e ficou me olhando sem saber por onde começar.


Encontro com Beto
Encontro com Beto

"Beto, tá tudo bem?" Ele colocou cerveja no copo. "Ary, eu... tive que viajar para o Rio de Janeiro porque minha mãe não tá muito bem. Agora meu irmão está com ela. Enquanto estava lá, recebi uma proposta. Um cliente novo. Diferente de tudo que a gente já fez." Fez uma pausa. "É uma produtora de cinema. Gostaram do seu trabalho. Querem conversar sobre uma série de ficção. Algo grande. Algo que pode mudar tudo."


Fiquei em silêncio, processando. O amigo imaginário assobiou. "Cinema. Série. Filme. Mudar tudo. Cuidado, Ary." Beto continuou: "Eles viram o filme da empresa de tecnologia. Viram os vídeos da dona Jurema. Leram seu blog. Viram até o vídeo da psicóloga. Ficaram impressionados com seu olhar, com a maneira como você capta histórias. Querem te encontrar na segunda-feira. Lá no escritório deles.”


Bebi um gole de cerveja. "Beto, isso parece muito bom." Ele sorriu — o primeiro sorriso desde que sentou. "É. E tem mais. Eles sabem do Roberto, do vídeo da família. Isso pesou a favor. Disseram que precisam de alguém com sensibilidade para contar histórias de afeto." O amigo imaginário levantou a mão. "Cuidado com histórias de afeto. Elas costumam vir com preços altos."


Olhei para o Beto, para o amigo imaginário, para a rua movimentada além da janela. Pensei em Luna nos braços do outro, no fantasma do Roberto, no doutor Sérgio querendo poesia na medicina, nos cinquenta funcionários que viraram um filme de duas horas. Pensei na minha avó, na casa em Minas, no retrato na parede. "Segunda-feira, então. Manda o endereço." Beto exalou alívio. Percebi que existia uma camada de preocupação no rosto dele. "Tem mais alguma coisa acontecendo?" Beto só estava preocupado com a mãe, que estava com um problema no coração e ia precisar fazer uma cirurgia em breve.


Depois que ele foi embora, fiquei mais um tempo no bar. O amigo imaginário não falava, só observava. Quando a cerveja acabou, levantei e fui até a porta. Antes de sair, olhei para a mesa onde Luna sentou naquela primeira noite. O amigo imaginário colocou a mão no meu ombro — fria, transparente, mas presente. "Ela era uma boa personagem.” E fomos.


No caminho, o metrô passou pela estação Paraíso. Olhei para a plataforma, mas ela não estava lá. Só gente comum, indo e vindo, carregando suas próprias histórias. O amigo imaginário disse, baixinho: "Você vai fazer essa série. Vai ser grande. E um dia, ela vai ver. Vai ver seu nome nos créditos e vai lembrar que te bloqueou." Quase sorri. "E daí? O que isso tem a ver?" Ele deu de ombros. "Daí que vitória é o melhor remédio para coração partido." Eu não estava de coração partido, mas fazia tanto tempo que eu não vivia um drama como aquele, que não poderia perder a oportunidade de sentir tudo que era possível naquela situação.


Cheguei em casa, abri o caderno e escrevi: "O ROBERTO ME DEU UM PRESENTE / a espera de quarenta anos / me ensinou que amor é presença / AGORA VEM O FILME / a história que a gente quer contar / mas precisa de coragem." O amigo imaginário leu por cima do meu ombro e, pela primeira vez em dias, sorriu de verdade. "É disso que estou falando." Fechei o caderno e fui para a janela. Lá embaixo, a cidade pulsava. E eu, pela primeira vez em semanas, senti que pulsava junto.


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