JOB #09 - O AÇOUGUE DAS ILUSÕES
- Will Silva

- há 3 dias
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Colocar expectativa em alguma coisa é a operação de maior risco da humanidade. Eu deveria ter aprendido isso aos vinte anos, quando esperei um retorno que nunca veio. Ou aos trinta, quando esperei um abraço que nunca chegou. Ou aos quarenta, quando esperei uma vida que nunca comecei. Mas a gente não aprende, a gente só repete os erros com roupagens diferentes. Ali, sentado numa sala que cheirava a carne moída e esperança podre, eu repetia meu erro favorito: acreditar.
O amigo imaginário estava encostado na parede descascada, os braços cruzados, a expressão de quem queria dizer "eu avisei" mas tinha a elegância de esperar o momento certo. A sala era pequena, com uma janela que dava para a rua movimentada e um ventilador de teto que girava fazendo um barulho de avião caindo. Embaixo da gente, um açougue de bairro — daqueles com cortes escritos à mão no vidro e um senhor de avental que passou a manhã inteira gritando "vinte e cinco reais o quilo, freguesa".
A grande produtora de cinema, a oportunidade que iria mudar tudo, a série que me colocaria no mapa — tudo isso funcionava no segundo andar de um açougue. O amigo imaginário finalmente falou, num sussurro que só eu podia ouvir: "Pelo menos se o projeto morrer, a gente já sabe onde compra carne barata."
John Plazius — sim, esse era o nome — vinte e poucos anos, entrou na sala com duas latas de cerveja quente e um sorriso de quem já tinha tomado umas três antes do meu horário de chegada. Ele usava uma camisa xadrez desabotoada, barba por fazer, e um entusiasmo que parecia combustível fóssil: algo que tinha sido extraído há muito tempo e agora queimava sem controle. "Ary! O gênio! O Beto falou tanto de você que eu tava imaginando um cara com óculos e chapéu, sabe? Tipo intelectual europeu." Estendeu a mão, que eu apertei sentindo a umidade. "Sou só eu mesmo."
John sentou na cadeira giratória que rangeu como um animal ferido, abriu a cerveja dele e apontou para a minha. "Bebe, bebe, vamos celebrar a parceria." Olhei para a lata, depois para o amigo imaginário, que balançou a cabeça. "Cerveja quente das dez da manhã é o primeiro sinal." Abri mesmo assim, por educação, e fingi um gole.
O pitch começou antes do segundo gole. John se inclinou na cadeira, os olhos brilhando. "Ary, eu tenho uma ideia revolucionária. Uma série que vai mudar a maneira como as pessoas enxergam a realidade. Tipo, você já parou pra pensar que talvez a gente esteja vivendo numa simulação? Que tudo o que a gente vê é uma ilusão criada por uma máquina que conecta todos os cérebros numa realidade paralela?" Ele fez uma pausa dramática, esperando minha reação.

O amigo imaginário levou a mão à testa. "Não. Não é possível." Eu mantive o rosto neutro. "Interessante. E como funciona essa máquina?" John se animou ainda mais. "A gente não explica. O mistério faz parte. Mas a ideia é que as pessoas acordam, de repente, e descobrem que estão todas conectadas. Que a realidade que elas viviam era falsa. É uma metáfora, saca? Sobre o sistema, sobre o controle, sobre a alienação."
Pigarreei. "E as pessoas... elas tomam uma pílula vermelha ou algo assim?" John arregalou os olhos. "Pílula? Não, não, nada de drogas. É mais espiritual, entende? Uma conexão cósmica." O amigo imaginário já estava rolando no chão de tanto rir. "Ary, pergunta pra ele se ele já viu Matrix." Tomei coragem. "John, você já assistiu Matrix?" Ele franziu a testa. "Matriz? Tipo, matemática?"
Respirei fundo. "Matrix, o filme. De 1999. Com Keanu Reeves." Ele continuou com a testa franzida. "Nunca vi. É bom?" O amigo imaginário já tinha levantado do chão e estava andando em círculos. "Isso é tão triste que chega a ser poético."
John continuou o pitch por mais quarenta minutos. A máquina que conecta os cérebros. A realidade paralela. O despertar da humanidade. A cada frase, eu reconhecia um pedaço de Matrix, um pouco de Vanilla Sky, um toque de Ex Machina. No final, ele recostou na cadeira e disse a frase que eu já esperava: "Quero você para escrever a série. A gente faz uma parceria, divide os lucros quando vender. Você entra com o talento, eu entro com a visão." Olha só!

O amigo imaginário parou de andar. "Tradução: você trabalha de graça." Coloquei a lata de cerveja na mesa, ainda cheia. "John, deixa eu te dar um conselho de amigo: assiste Matrix. Depois a gente conversa." Levantei e fui para a porta. Ele ainda gritou alguma coisa sobre "oportunidade única" e "você vai se arrepender", mas eu já descia as escadas que cheiravam a carne moída, seguido pelo amigo imaginário que não parava de rir.
No caminho para o metrô, ele finalmente se acalmou. "Você foi educado. Eu teria rido na cara dele." Andei rápido, tentando colocar a situação em perspectiva. "O pior é que ele realmente acredita. Ele deve ter tido essa ideia num bar, depois da terceira dose, e achou que era original." O amigo imaginário concordou. "Agora você entende por que o escritório era em cima de um açougue? Aluguel mais barato pra comportar o prejuízo."
O Beto estava me esperando em casa. Literalmente — sentado na escada do prédio, o rosto enterrado nas mãos. Quando me viu chegar, levantou num pulo e começou a falar antes que eu abrisse a boca. "Ary, me desculpa. Me desculpa, cara. Eu fui um idiota. Eu tava num bar, tinha bebido metade de uma garrafa de vodka, e esse cara sentou do meu lado e começou a falar. Ele era tão convincente, tão empolgado, que eu acreditei. Nem chequei nada. Nem pesquisei. Só acreditei."
O amigo imaginário sentou no corrimão, observando a cena como quem assiste a um documentário. Abri a porta do prédio e fiz sinal para Beto subir. No apartamento, coloquei água para ferver e fiz café enquanto ele continuava o discurso de autoflagelação. "Eu devia ter pesquisado. Devia ter perguntado sobre os trabalhos anteriores. Devia ter ido ao escritório antes de te passar o contato. Mas eu tava tão preocupado com minha mãe, com a cirurgia, com tudo, que baixei a guarda."
Entreguei uma xícara para ele. "Beto, respira. Não foi nada. Perdi uma manhã, ganhei uma história boa. Podia ser pior." Ele me olhou com os olhos marejados. "Você não tá puto?" Sentei na poltrona. "Tô cansado. Mas não puto. A gente erra. Faz parte." Ele bebeu o café em silêncio por um minuto. Depois disse: "Tem mais uma coisa."
O amigo imaginário levantou a sobrancelha. "Lá vem." Beto colocou a xícara na mesa. "Minha mãe vai fazer a cirurgia no mês que vem. Depois disso, ela vai precisar de acompanhamento por uns tempos. Meu irmão não pode ajudar porque tem os filhos pequenos. Eu... eu tô pensando em me mudar para o Rio. Só por uns meses, até ela ficar boa. Mas isso significa que eu não vou conseguir continuar trabalhando com você do mesmo jeito."
Fiquei em silêncio, processando. O amigo imaginário sentou no braço da poltrona. "Seu braço direito vai pro Rio." Beto continuou, rápido, como se quisesse tirar tudo de uma vez: "Eu posso treinar alguém. Tenho um amigo, o Gabriel, que é bom, organizado, entende de produção. Ele pode ficar no meu lugar aqui em São Paulo, e eu trabalho de lá, online. Se você quiser, claro. Se não quiser, eu entendo."
Olhei para ele, para o amigo imaginário, para a xícara de café esfriando. "Beto, você cuida da sua mãe. A gente resolve o resto depois. O Gabriel pode vir conversar comigo semana que vem. E você vai estar online quando a gente precisar." Ele suspirou aliviado. "Obrigado, Ary. Sério."
Depois que ele saiu, o amigo imaginário se materializou na poltrona. "O Beto é um bom garoto." Sentei no sofá. Ele apontou para o caderno. "Vai escrever sobre isso?" Peguei o caderno e rabisquei: "JOHN PLAZIUS / o nome parece remédio para intestino / a ideia parecia Matrix sem Matrix / o escritório era em cima de um açougue / e eu perdi uma manhã / mas ganhei uma história." O amigo imaginário leu e riu. "Pelo menos isso."
Na terça-feira, encontrei o doutor Sérgio no consultório dele para a primeira reunião de trabalho. Dessa vez, a sala parecia diferente — mais iluminada, mais viva. Ele tinha separado um bloco de notas, um café fresquinho, e uma lista de ideias rabiscadas à mão. "Ary, antes de começar, quero te dizer que isso é um sonho antigo. Desde que me formei, eu penso em como a medicina podia ser contada de um jeito diferente. Mais humano. Mais poético."

Peguei meu caderno. "Me conta o que você imagina." Ele passou a hora seguinte falando sobre casos que marcaram a carreira, sobre pacientes que ensinaram mais do que livros, sobre o momento em que percebeu que a doença não era o inimigo — o medo era. "Eu queria fazer vídeos curtos, para o YouTube e Instagram. Coisas de um minuto, dois no máximo. Cada vídeo contando uma cena. Um diagnóstico. Uma espera. Uma alta. Um silêncio."
O amigo imaginário estava sentado no sofá, ouvindo com atenção. Quando Sérgio terminou, ele disse baixinho: "Esse cara é bom." Anotei algumas ideias soltas: "A SALA DE ESPERA / o tempo que não passa / O DIAGNÓSTICO / a palavra que muda tudo / A ALTA / o recomeço / O SILÊNCIO / o que não se fala mas se sente." Rabisquei duas linhas com a ideia central. Mostrei para ele. "Algo nessa linha?"
Sérgio leu e sorriu. "É exatamente isso. Como você faz isso?" Guardei o caderno. "Treino. E solidão." Ele riu. "Bom, então temos um acordo. Começamos na próxima semana. Quero gravar no hospital, no consultório, na casa de alguns pacientes que toparem." Apertei a mão dele. "Combinado."
Saindo do consultório, caminhei até a Paulista sem pressa. O amigo imaginário flutuava ao meu lado. "Gostei desse modelo. Contrato mensal. Previsibilidade. Dá para planejar." Concordei. "É isso que eu preciso. Uma base fixa para poder fazer os projetos especiais sem desespero. O dinheiro do doutor Sérgio paga as contas, e eu posso escolher os jobs que realmente quero." Ele assobiou. "Olha só. O Ary virando adulto aos 47."
No metrô, de volta para casa, fiquei pensando na estrutura nova. Clientes mensais — o doutor Sérgio, talvez a dona Jurema que queria mais vídeos sobre a história da região, talvez a Márcia com novos projetos. Uma base sólida. E no meio disso, jobs especiais — como o da empresa de tecnologia, que virou filme, ou o do Edgar, que virou referência. O amigo imaginário leu meus pensamentos. "E a Luna?" Fechei os olhos. "A Luna é passado."
Quando cheguei no meu andar, o corredor estava vazio. Não estava. No chão, encostada na minha porta, tinha uma pessoa. Cabelo roxo? Luna? "As pessoas deram para aparecer na sua porta ou é coisa de escritor preguiçoso?" Comentou o amigo com deboche.

Ela levantou quando me viu. "Ary." Fiquei parado, a chave na mão, o amigo imaginário grudado atrás de mim. Ela deu um passo na minha direção. "Preciso falar com você. Por favor." Abri a porta.
Dentro do apartamento, ela sentou no sofá e eu fiquei de pé, encostado na parede. O amigo imaginário ocupou a poltrona, os olhos atentos. Luna começou a falar sem olhar para mim. "Eu sei que te devo uma explicação. E um pedido de desculpas. E provavelmente mais coisas." Passou a mão no cabelo. "Quando a gente se conheceu, eu estava numa relação que... que eu achava que não era séria. Tinha terminado, tinha voltado, tinha terminado de novo. Era uma bagunça."
Ela finalmente me olhou. "Eu gostei de você, Ary. Gostei de verdade. Mas quando eu vi que tava gostando demais, entrei em pânico. Porque eu ainda tava com ele. Porque eu não tinha resolvido nada. E aí fiz a coisa mais covarde: sumi. Te bloqueei. Fingi que você não existia.” Respirou fundo. "Fui uma idiota. Uma covarde. Vou entender se não quiser me perdoar."
O amigo imaginário cochichou: "Ela é boa atriz." Ignorei. Sentei na ponta do sofá, longe o suficiente para não tocar nela. "Por que você está aqui, Luna?" Ela enxugou as lágrimas com as costas da mão. "Porque vou casar sábado que vem. Com ele. Eu tô grávida. A gente resolveu tentar de vez." Meu estômago embrulhou. Ela continuou: "E eu... eu não queria terminar isso sem te ver. Sem te pedir desculpa. E sem... sem uma despedida."
Arregalei os olhos. "Que despedida?" Ela me olhou com uma mistura de vergonha e desejo. "Ary, o que a gente teve foi curto, mas foi real. Pelo menos pra mim. E eu queria... eu queria passar uma noite com você. Como despedida. Da minha solteirice. Da gente." O amigo imaginário caiu da poltrona. "ISSO NÃO ESTÁ ACONTECENDO!"

A noite passou num misto de urgência e delicadeza. Corpos que se conheciam mas também não se conheciam. Toques que diziam "adeus" em cada carícia. Em algum momento da madrugada, ela dormiu, e eu fiquei olhando o teto, ouvindo a respiração dela, pensando em todas as escolhas erradas que a gente faz em nome do que sente.
Quando o céu começou a clarear, senti o movimento na cama. Ela se levantou, devagar, cuidadosa. Pegou a roupa no chão, vestiu em silêncio. Parou na porta do quarto e olhou para mim por um longo segundo. Eu mantive os olhos fechados, a respiração controlada, fingindo que dormia. Ela sussurrou: "Adeus, Ary." E saiu.
O amigo imaginário apareceu na cadeira do quarto. "Você tá acordado." Abri os olhos. "Tô." Ele balançou a cabeça. "Por que não se despediu?" Olhei para a porta vazia. "Essa noite já foi um epílogo."
Fiquei mais uma hora na cama, processando. Depois levantei, fiz café, sentei na mesa da cozinha. O amigo imaginário estava no banco em frente, em silêncio. Bebi o café olhando para a parede. Quando a xícara estava vazia, o telefone tocou.
Número desconhecido. Atendi. "Ary?" Voz masculina, séria, profissional. "Quem fala?" "Meu nome é Marcelo, sou diretor de uma emissora de TV. O Beto me passou seu contato. Vi seu trabalho, especialmente o filme da empresa de tecnologia e os vídeos da dona Jurema. Queria saber se você conseguiria passar aqui para bater um papo. Temos um projeto que pode te interessar."
O amigo imaginário levantou a sobrancelha. Olhei para o café, para a porta do quarto entreaberta, para o céu cinza de São Paulo lá fora. "Claro, Marcelo. Quando você quer?" Ele marcou para quinta-feira, no escritório da emissora, nos Jardins. Desliguei e fiquei com o telefone na mão.
O amigo imaginário assobiou. "Emissora de TV. Projeto. Depois da noite que você teve, isso parece roteiro." Guardei o celular. "A vida é roteiro. A gente só esquece de lembrar dos beats." Ele riu. "Pelo menos o próximo escritório não vai ser em cima de um açougue." Levantei para lavar a xícara. "Eu ainda vou fazer um projeto com John Plazius."
Peguei o caderno e escrevi: "A MALDIÇÃO DO NOME / John Plazius (parece remédio) / a máquina que conecta cérebros (sem Matrix) / a sala sobre o açougue / O BETO VAI PRO RIO / mas volta / O MÉDICO QUER POESIA / contrato mensal / A LUNA VOLTOU PRA IR EMBORA / despedida com gosto de epílogo / NA QUINTA, TV / o último capítulo."
O amigo imaginário leu por cima do meu ombro. "Ficou bom. Mas cadê a parte que eu avisei sobre a Luna?" Fechei o caderno. "Você avisa sobre tudo. Se fosse escrever todas as suas advertências, o caderno não chegava nem no Job 3." Ele riu e desapareceu, deixando eu sozinho com o barulho da cidade e o cheiro de café passado. Por enquanto, era o suficiente.
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