JOB #10 - A CAIXA DE PROJETOS INACABADOS
- Will Silva

- há 3 dias
- 6 min de leitura

A padaria era daquelas que tentam parecer europeias sem nunca terem saído do Brasil: pães de fermentação natural expostos em cestos de vime, garçons com avental jeans e sorriso treinado, um quadro negro escrito à mão com os sabores do dia. Eu estava sentado numa mesa perto da janela, tomando um café que custava o triplo do que eu pagava no boteco da esquina, mas que vinha com uma folha de hortelã flutuando e uma explicação sobre a origem dos grãos. O amigo imaginário ocupava a cadeira em frente, fingindo ler o cardápio. "Sessenta e oito reais um croissant? Por esse preço, ele devia vir com uma consulta terapêutica inclusa."
O Beto chegou com dez minutos de atraso — o que para ele era pontualidade — e sentou-se ofegante, pedindo desculpas pelo trânsito. Ele estava com uma camisa social, coisa rara, e um semblante que misturava ansiedade e alívio. "Ary, me conta logo. O que o Marcelo disse?" Peguei o café e tomei um gole devagar, só para provocar. O amigo imaginário revirou os olhos. "Para de fazer drama."
Coloquei a xícara no pires. "Dois anos, Beto. Contrato de dois anos com a emissora. Vou desenvolver projetos de webfilmes — vídeos curtos, narrativas serializadas, conteúdo estratégico para manter o público engajado. Eles amaram a ideia de trabalhar com formatos híbridos, algo entre documentário e ficção." O rosto do Beto se abriu num sorriso que iluminou a padaria inteira. "Caralho, Ary! Dois anos? Isso é estabilidade! É um salário!" Balancei a cabeça. "É um contrato. E uma responsabilidade. Mas sim, é bom."
O amigo imaginário assobiou. "Estabilidade. Quem diria. O freelancer vira funcionário sem perder a alma." Ignorei e continuei: "Vou assinar na semana que vem. E você, como está a situação?" O sorriso do Beto diminuiu, mas não desapareceu. "Mãe vai operar mês que vem. Já comprei a passagem pro Rio. Vou no domingo." Ele fez uma pausa. "E você, vai continuar pegando jobs?" Pensei antes de responder. "Vou manter o doutor Sérgio, o contrato mensal com ele é bom. Talvez pegue mais dois ou três nesse modelo, clientes antigos que gostam de previsibilidade. Mas o grosso do tempo vai ser dedicado ao novo emprego. E..."
Hesitei. O Beto inclinou a cabeça. "E?" Respirei fundo. "E vou investir em projetos autorais. Quero apostar na carreira de escritor de verdade. Roteiros, séries, coisas que saiam de mim, não de briefings." O Beto ficou em silêncio por um segundo, depois ergueu a xícara de café como quem faz um brinde. "Sempre foi seu caminho, Ary. Só demorou pra perceber." O amigo imaginário bateu palmas silenciosas. "Até que enfim."
Passamos a hora seguinte conversando sobre a transição, sobre o Gabriel que viria treinar, sobre como a dinâmica ia mudar. Quando nos despedimos, o Beto me abraçou — um abraço demorado, desses que dizem mais do que palavras. "Vou sentir falta, Ary." Apertei o ombro dele. "Vai ser online. E eu vou ao Rio assim que puder." Ele sorriu e entrou no Uber. Fiquei na calçada, vendo o carro sumir no trânsito, o amigo imaginário ao meu lado. "Seu braço direito indo pro Rio." Concordei. "Mas a cabeça continua aqui."
Em casa, o silêncio parecia diferente. Não o silêncio pesado de antes, mas um silêncio de expectativa, de coisas prestes a acontecer. Fui até o quarto dos fundos — aquele que eu chamo de escritório mas é na verdade um depósito de sonhos abandonados. O amigo imaginário se materializou ao meu lado, espiando. "Uau. A arqueologia dos seus fracassos." Dentro da caixa, pilhas e pilhas de papéis. Roteiros começados e interrompidos. Sinopses rabiscadas em guardanapos. Projetos impressos com anotações a caneta. Diagramas de personagens. Linhas do tempo. Mapas mentais. Tudo incompleto. Tudo parado no meio do caminho.

Comecei a tirar os papéis um a um, lendo os títulos em voz alta. "A Última Biblioteca. Uma série sobre livros que desaparecem quando ninguém os lê. Parei no terceiro episódio." O amigo pegou uma folha. "Cinco páginas. Animador." Outro projeto: "O Homem que Vendia Tempo. Parei na metade do segundo ato." Mais um: "Memórias do Subsolo Paulistano. Só tem a primeira cena." O amigo imaginário foi separando os papéis em pilhas. "Todos incompletos. Todos começados com empolgação e abandonados na primeira dificuldade."
Sentei no chão, rodeado por destroços de ideias. "Não é bem assim. Alguns eu parei porque veio um job urgente. Outros porque perdi o fio da meada. Outros porque... porque não eram bons o suficiente." O amigo sentou na minha frente, cruzando as pernas invisíveis. "Ary, deixa eu te perguntar uma coisa: por que você consegue terminar todos os projetos dos outros e nenhum dos seus?" A pergunta ficou pairando no ar.

Peguei um roteiro aleatório — "A Confissão", sobre um padre que perde a fé — e folheei as páginas amareladas. "Porque os projetos dos outros pagam as contas. E os meus... os meus pagam os sonhos. Mas sonho não tem prazo, não tem cliente esperando, não tem multa contratual. Então a gente vai empurrando, deixando pra depois, achando que vai ter tempo." O amigo balançou a cabeça.
Ficamos em silêncio por um tempo, eu mexendo nos papéis, ele observando. Depois ele pegou um caderno fino, com a capa já solta. "O que é isso?" Abri. Era um projeto antigo, de anos atrás, chamado "O Outro Lado". Uma série sobre o mundo dos mortos vista pelos olhos de um homem que consegue vê-los. "Isso é velho. Escrevi num curso de roteiro que eu fiz. Mas parei porque... porque ficou pesado demais."
O amigo imaginário folheou as páginas. "Tem coisa boa aqui. Personagens interessantes. Uma premissa forte." Ele levantou os olhos para mim. "Ary, você passa a vida inteira criando histórias sobre os outros. Sobre a Márcia, sobre o Edgar, sobre a dona Jurema. Mas tem uma história que só você pode contar. A história dos espíritos. Porque você consegue ouví-los.” Ele apontou para si mesmo. “Bem, eu posso.”
Foi como se um raio tivesse atravessado o teto e me acertado em cheio. Fiquei paralisado, o caderno nas mãos, a ideia se expandindo na cabeça como uma explosão em câmera lenta. "É isso." A voz saiu num sussurro. "É exatamente isso." O amigo imaginário arqueou uma sobrancelha. "O quê?" Levantei de um pulo, o coração acelerado. "A série. O projeto autoral. Uma série sobre o mundo dos mortos. Sobre gente que vê fantasmas. Sobre o que eles têm a dizer. Sobre o que a gente não quer ouvir."
Comecei a andar pela sala, as ideias fervilhando. "Pensa: cada episódio, uma história diferente. Um fantasma que não consegue partir. Uma pessoa que consegue vê-lo. O encontro entre os dois mundos. Pode ser baseado em relatos reais, em lendas urbanas, em histórias que eu ouvi durante esses anos todos." Peguei o caderno e comecei a rabiscar freneticamente. "TÍTULO PROVISÓRIO: O OUTRO LADO / ou A VISITA / ou FANTASMAS QUE EU VI / formato: antologia / cada episódio independente / mas todos conectados pelo mesmo tema."

O amigo imaginário me observava com um sorriso. "E quem vai ser o protagonista? O cara que vê os fantasmas?" Parei de andar. "Pode ser um personagem inspirado em mim. Mas não eu. Um escritor solitário que descobre que consegue ver os mortos. E ele começa a registrar as histórias deles. Cada episódio é um caso." Sentei no sofá, a cabeça girando. "E a emissora? Eles toparam desenvolver projetos autorais. Posso apresentar isso como uma das primeiras séries."
O amigo imaginário sentou ao meu lado. "Você vai ter que terminar. Dessa vez, não pode parar no meio." Olhei para ele, para aquele ser transparente que me acompanhava há vinte anos, e senti uma gratidão imensa. "Você vai me ajudar?" Ele riu. "Eu sempre ajudo. Você é que não percebe.”
Peguei todos os papéis da caixa e comecei a jogar de volta, sem cerimônia. "Vamos começar do zero. Vamos ouvir o que os mortos têm a dizer." O amigo imaginário me olhou, confuso. "Como assim?" Levantei, fui até o armário e peguei uma mochila. Coloquei o caderno, uma caneta, a câmera, um gravador. "Vamos ao cemitério." Ele arregalou os olhos. "Cemitério? Agora?" Fechei a mochila. "Agora. Onde mais a gente encontra espíritos dispostos a conversar?"
O cemitério era enorme, um daqueles do bairro de Santana, com mausoléus antigos e árvores centenárias. A tarde estava nublada, o que deixava tudo mais cinzento, mais solene. Entrei pelo portão principal, a mochila nas costas, o amigo imaginário flutuando ao meu lado. Caminhei pelas alamedas, lendo os nomes nas lápides, as datas de nascimento e morte, as dedicatórias. "Aqui jaz Maria, amada esposa e mãe." "Em memória de João, que partiu cedo demais." O amigo imaginário lia junto. "Tanta história. Tanta gente que viveu, amou, sofreu, e agora é só um nome na pedra." Sentei num banco de pedra perto de um mausoléu antigo, coberto de musgo. Peguei o caderno e questionei se ele não estava vendo nenhum espírito ainda. “Tô vendo centenas deles.” Confesso que essa informação na hora me deu um gelo na barriga. “Então, vamos começar. Pode chamar o primeiro.”

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